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Mostrando postagens de junho, 2021
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A linguagem é angústia? Deve-se lembrar que o futuro nem é de todo nosso, nem de todo não nosso, afim de que não o esperemos como algo que será, nem como algo que não será. Epicuro, Carta a Meneceu Para o segundo Wittgenstein a linguagem não representa estados privados como a dor, apenas funciona como um conjunto de regras de usos variados, um jogo para quem tem as ferramentas à disposição. Se digo que sinto dores, não há como meu interlocutor acessar essa dor, saber de fato se a sinto, se estou mentindo, se uso os termos “sinto dor" como um código para alguém próximo tomar determinada atitude previamente combinada. Portanto também não figura ou representa estados de angústia. E xemplo: Ir ao psicólogo e relatar eventos angustiantes. Não o estou fazendo ter acesso a esses eventos ou a determinada experiência angustiante, nem figurando-os, mas construindo na relação clínica sentidos para minhas experiências. Não sentidos representativos ou figurativos que transmitam diretamen...
A Linguagem? Se escrevo excertos como: I Acordar: o espectro solar no calço umbroso da manhã quando os olhos levantaram com o corpo. A luz salgada penetrava nos olhos e ardia, os cílios cercados de um âmbar quebradiço e muito seco enquanto o gesso do sono evolava. Seria toda forma de caminhar um erro pródigo? A forma Gaia do sentimento como o óxido iridescente cravado nas reminiscências. Abrir o livro do vulcão da América Latina e ler “No te amo como si fueras rosa de sal, topacio” recordando os dias entre a claridade e a claridade menor. Andar com sono pela casa do avô já morto com parte dos tios enumerados, cheiro envernizado dos móveis e da alma, um mogno do sangue; junto ao barro do solo uma vastidão de trepadeiras escaladas com extrema perícia e cautela pelos pequenos, arremessando cajus e fugindo dos piolhos de cobra quando já finado o frio do bafo serrano. Cabe o desafio maior de ir do portão de ferro mirrado até às proximidades da casa sem pisar no chão e somente pelo se...
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  A linguagem é escurecimento? Rimbaud teve seus pares de desconstrução: poetas que reinventaram o fazer poético. Rilke e Trakl são dois exemplos preclaros, pontos de transição do século do idealismo alemão para o século das duas grandes guerras. A Alemanha está repleta de poetas de contornos metafísicos e imagéticos e ambos tem esses dois elementos em suas obras, mas também uma peculiaridade que os torna poetas tão contrastantes entre si: a grande diferença com que fazem uso do idioma alemão. Mas ainda assim poetas que iluminaram a selva oscura do modernismo em poesia. Trakl foi um poeta expressionista, com uma linguagem grotesca, original e potente, em que as imagens seguem-se umas às outras como num quadro de Van Gogh, aparentemente desconexas, recortadas no todo, mas contendo cada uma a semântica geral da obra: Dor, desespero, cores e morte. Segundo Cavalcanti, tradutora de Trakl e quem assina o posfácio da antologia De Profundis, em 1914 “Era o começo do fim: Trakl havi...
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A linguagem é iluminação? Nas suas Iluminations , recortes poéticos e surrealistas, Rimbaud usa a linguagem como um projeto: Faze-la florescer e implodir, cores e nomes, verbos e sonhos, iluminuras. No poema Rastros esse projeto é tão visível que se assemelha a subitamente abrir os olhos mergulhados no escuro na luz do sol da manhã “À direita a aurora de verão desperta as folhas e os vapores e os rumores deste canto do parque, e as encostas à esquerda retém em sua sombra violeta os mil rastros rápidos da trilha úmida. Desfile de fantasias. De fato: carros carregados de animais de madeira dourada, de mastros e telas de cores berrantes, no grande galope de vinte cavalos de circo malhados, e os meninos, e os homens sobre seus mais incríveis animais; vinte veículos, corcundas, pavoneados e floridos como as carroças antigas ou dos contos de fada, cheias de crianças enfeitadas para uma pastoral suburbana. Até caixões sob seus dosséis noturnos ostentando penachos de ébano desfilando ao tr...
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  Continuação sobre o tema do Eu ou A Cisão “Procuramos por toda parte o Incondicionado e encontramos sempre apenas coisas.” Novalis “Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões” Whitman O conceito de Eu aparece em discursos psicológicos, filosóficos, sociológicos, teológicos, poéticos etc. Afirmar ou enunciar, conceituar ou predicar, considerar ou sistematizar qualquer coisa, sobre o Eu, mesmo se ele é uno ou cindido é, antes de tudo, situá-lo no campo da linguagem. Hume afirma, nos Ensaios sobre o entendimento humano, que nossas ideias a priori são apenas relações de ideias puras como as da matemática e as da geometria. Mas quanto as questões de fato da experiência, nossas ideias vem apenas dessa experiência a posteriori. No campo das questões de fato conhecemos as coisas por meio das nossas Percepções, que diferem apenas quanto a intensidade com que as percebemos e se dividem em Impressões dos sentidos e Ideias (estas últimas, ...
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Que é o Eu?  “O Uno é todas as coisas e não é nenhuma delas” Plotino De onde vem a noção de Eu? De unidade consigo mesmo? de indivíduo subjetivo? De que sou a mim mesmo e não um outro? A linguagem está nesses questionamentos sendo seu veículo. Na teoria freudiana da construção do aparelho psíquico há a noção de Eu ideal, onde o bebê está para si como uma Unidade e o mundo apenas um prolongamento do seu ser. Platão, no Timeu, fala do Demiurgo uno e perfeito que cria o universo e o preenche com alma ( psyché ), um universo vivo. Descartes, nas suas meditações sobre a filosofia primeira, pelo exercício da dúvida hiperbólica chega ao pensamento puro, onde o duvidar que penso já é estar pensando, portanto não posso duvidar que penso, única certeza possível: res cogitans , o puro pensar. Descartes deduz o cogito como um axioma, mas o “eu penso” é uma tautologia, visto que o Eu cartesiano já é o puro pensar. Seria o Eu uma metalinguagem ou uma repetição egoica da linguagem?  Sh...