A linguagem é angústia?

Deve-se lembrar que o futuro nem é de todo nosso, nem de todo não nosso, afim de que não o esperemos como algo que será, nem como algo que não será.

Epicuro, Carta a Meneceu

Para o segundo Wittgenstein a linguagem não representa estados privados como a dor, apenas funciona como um conjunto de regras de usos variados, um jogo para quem tem as ferramentas à disposição. Se digo que sinto dores, não há como meu interlocutor acessar essa dor, saber de fato se a sinto, se estou mentindo, se uso os termos “sinto dor" como um código para alguém próximo tomar determinada atitude previamente combinada. Portanto também não figura ou representa estados de angústia. Exemplo: Ir ao psicólogo e relatar eventos angustiantes. Não o estou fazendo ter acesso a esses eventos ou a determinada experiência angustiante, nem figurando-os, mas construindo na relação clínica sentidos para minhas experiências. Não sentidos representativos ou figurativos que transmitam diretamente a sensação privada de angústia para o psicólogo, mas uma pragmática terapêutica pelo método que tem por base a comunicação, mas não o acesso aos "estados privados". Ainda que possa estar mentindo para seguir na terapia para ter um motivo de fuga.

Aqui portanto a linguagem não é angústia. Contudo, mesmo que a linguagem não nos permita acessar ou figurar esse estado privado, nos permite, possivelmente, sua significação a partir das ferramentas intersubjetivas do sentido, visto que a linguagem é um construto coletivo de contornos imprecisos e abertos. Para Wittgenstein havia um pensador na Dinamarca do século XIX que foi mais profundo desse século, o filósofo e teólogo S. Kierkegaard, que publicou uma obra de difícil classificação intitulada “O conceito de Angústia”, entre outras que lhe renderam o epíteto de pai do existencialismo na filosofia. A angústia aparece em Kierkegaard como o nada da possibilidade, o puro possível, sem objeto definido.

“A angústia é uma qualificação do espírito que sonha, e pertence como tal à psicologia (...) A realidade efetiva do espírito se apresenta sempre como uma figura que tenta sua possibilidade mas se evade logo que se queira captá-la, e é um nada que só pode angustiar (...)O conceito de angústia não é tratado quase nunca na Psicologia, e portanto tenho de chamar a atenção sobre sua total diferença em relação ao medo e outros conceitos semelhantes que se referem a algo determinado, enquanto que a angústia é a realidade da liberdade como possibilidade antes da possibilidade (Kierkegaard, 2010, p. 45)

Diferente dos sentimentos de raiva, dor, melancolia, tristeza, a angústia é um estado de abismo em que o possível aparece como um horizonte de mobilidade. Há o nada da possibilidade porque não há nenhuma concreção, apenas projeção, inocência, e “inocência é ignorância” (Kierkegaard, 2010, p. 44). Apenas o salto qualitativo do indivíduo pode pôr em concreção a possibilidade do estado de angústia. Estado onde

“Há paz e repouso, mas ao mesmo tempo há algo de diferente que não é discórdia e luta; pois não há nada contra o que lutar. Mas o que há, então? Nada. Mas nada, que efeito tem? Faz nascer angústia. Este é o segredo profundo da inocência, que ela é ao mesmo tempo angústia. Sonhando, o espírito projeta sua própria realidade efetiva, mas esta realidade nada é, mas este nada a inocência vê continuamente fora dela. (Kierkegaard, 2010, p. 45)

Kierkegaard usa o mito de Adão como metáfora para elaborar seu texto sobre a angústia. O primeiro homem, inocente (ignorante, que desconhece), sem pecado, é tentado pela serpente a comer o fruto proibido. Sente angústia: projeta sua possibilidade como realidade efetiva, o nada do abismo do possível, e põe esse mesmo possível em concreção pelo salto qualitativo, come o fruto, perde a inocência que é ao mesmo tempo angústia e desconhecimento, gerando culpa. Tanto culpa no sentido ético para uma conduta, tanto estético para uma sensualidade, tanto no sentido da onticidade, do sujeito que é responsável pelo seu próprio salto qualitativo.

“Angústia pode-se comparar com vertigem. Aquele, cujos olhos se debruçam a mirar uma profundeza escancarada, sente tontura. Mas qual é a razão? Está tanto no olho quanto no abismo. Não tivesse ele encarado a fundura!... Deste modo, a angústia é a vertigem da liberdade, que surge quando o espírito quer estabelecer a síntese, e a liberdade olha para baixo, para sua própria possibilidade, e então agarra a finitude para nela firmar-se.” (Kierkegaard, 2010, p. 66)

Agarra a finitude porque o abismo é inteiramente desconhecido. Projeta uma realidade que é, antes de tudo, projeção, um nada do possível, que gera angústia. Portanto angústia, para Kierkegaard, não é um sentimento, mas um estado, onde é posto o movimento pelo salto qualitativo. Kierkegaard afirma que o indivíduo é ele mesmo e o gênero humano e que o gênero humano começa novamente com cada indivíduo. Mas gênero humano é quantidade, indivíduo é qualidade, diferença, subjetividade e o sujeito é a síntese entre o indivíduo e o gênero humano.

Relacionando ao pecado de Adão, visto que Kierkegaard era antes um teólogo que um filósofo, o pensador nos esclarece o que é o salto qualitativo para os indivíduos posteriores ao primeiro Homem do pecado, que come o fruto proibido

“(...) pois vale aqui a inocência do indivíduo posterior o que foi dito sobre a de Adão: tudo isso só é para a liberdade e só é na medida que o indivíduo mesmo coloca o pecado pelo salto qualitativo. O nada da angústia é nesse caso um complexo de pressentimentos, os quais se refletem em si mesmos, aproximando-se mais e mais do indivíduo, embora, vistos essencialmente, na angústia tornem a significar nada; mas, bem entendido, não um nada com o qual o indivíduo não teria nada a ver, mas um nada que se comunica de maneira viva com a insciência da inocência.”

Angústia. Pecado. Inocência. Os teores fortemente teológicos dessa terminologia são, no início da obra, contextualizados pelo próprio autor com suas possíveis outras significações para o campo da Ética, da Psicologia, da Estética. Portanto inocência é também a insciência da concreção (da possibilidade concretizada pelo salto qualitativo), identificada com o pecado, que é tanto o pecado de Adão primordial, como o pecado de cada homem ao pôr sua inocência (desconhecimento) à prova da ação, do salto, da concreção. Portanto pecado assume também matizes éticos e estéticos, de ação, atividade, sensualidade, concreção, não apenas teológicos, visto ser do próprio autor a intenção do livro não ser um tratado de teologia, mas de angústia. E o fruto da concreção da possibilidade é a culpa, caso seja angústia da possibilidade o estado anterior, culpa essa com significações, novamente, tanto teológicas como éticas, estéticas, psicológicas. Culpa como responsabilidade subjetiva pelas próprias ações, onde o autor não incorre em limitar os termos, mas diversificá-los em suas múltiplas significações. Afinal, “na angústia reside a infinitude egoísta da possibilidade, que não tenta como escolha, mas angustia, insinuante, com sua doce ansiedade” (Kierkegaard, 2010, p. 66) Depois desse conceito de angústia, o século XX bebe da fonte cristalina deixada por Kierkegaard aos futuros pensadores, em especial Heidegger e Sartre, o primeiro em sua Ontologia Hermenêutica, o segundo em sua Onticidade do Ser, edificam seus conceitos de angústia e liberdade, principalmente, a partir desse texto do filósofo dinamarquês.

Todavia existem os relatos pessoais, os diários, as cartas, as canções. Como aparece o fenômeno da angústia nos relatos íntimos das vivencias, na Earklarüng (explicação) do que é o viver a angústia? Brecht escreve nos seus Diários de trabalho em Julho de 1940:

“É compreensível que o povo daqui ame sua paisagem. É muito rica e variada em escala colossal. Os lagos com sua abundância de peixe, os bosques com suas belas árvores e o cheiro de morangos e bétulas. Os formidáveis verões que explodem da noite para o dia após os intermináveis invernos, intenso calor depois de frio intenso. E assim como o dia desaparece no inverno, a noite desaparece no verão. E então o ar é tão poderoso e tem um sabor tão bom que quase satisfaz sozinho o apetite da gente. E que música enche esse céu radiante! O vento sopra quase sem parar, e já que encontra muitas e variadas plantas, relvas, cereais, arbustos e árvores, o resultado é uma doce harmonia que se eleva e cai, que a gente quase não ouve e no entanto está aí.” (Brecht, 2002, p. 94)

O que é essa felicidade que se transmuta em angústia, o movimento constante do inacabado, do desconhecido, do grotesco, do sublime, do Thânatos que percorre cada temporalidade de felicidade e tristeza, cada estado de angústia e determinação. Brecht parece estar feliz com um clima alheio ao da Alemanha não porque é variado e novo, mas porque está longe do caos. Kafka, citado acima em seu diários, também apresenta o fenômeno da angústia, mas como cisão do Eu. Brecht está cindido pela guerra, pela civilização em caos. Os seus Diários de trabalho são escritos, em sua maioria, numa terminologia quase jornalística, por vezes seca e direta, por vezes francamente tratando sobre seus trabalhos dramáticos e poéticos, mas em determinados pontos o autor não consegue usar a mesma linguagem para falar sobre seu estado de “nadificação”. Poucos meses depois, em Setembro de 1940, Brecht deixa nítida sua angústia:

“Seria inacreditavelmente difícil expressar meu estado de espírito enquanto acompanho a batalha da Grã-Betanha pelo rádio e nos péssimos jornais fino-suecos, e depois escrevo Puntila. Este fenômeno intelectual explica não somente que tais guerras podem existir mas também que obras literárias podem ser produzidas. A bem dizer Puntila não significa nada pra mim, a guerra tudo; Sobre Puntila posso escrever praticamente qualquer coisa, sobre a guerra, nada. E não quero dizer apenas que não “posso”; na verdade não “sou capaz”. É interessante notar como a literatura, enquanto atividade prática, está tão distanciada dos centros onde ocorrem acontecimentos decisivos. (Brecht, 2002, p. 121-122)

Brecht não consegue escrever nada sobre a guerra. Assim como Kierkegaard disse que o nada é a pura possibilidade, o salto no abismo do desconhecido, do possível projetado como realidade, Brecht se angustia com a guerra e, exilado, escreve nos diários seu estado de nada do possível frente aos conflitos e conluios da Alemanha nazista. Parece que Brecht ressoa os versos de Hesíodo (2019, p. 33) em Os trabalhos e os Dias, quando o poeta canta o mito da Raça de ferro, abandonada:

“Então, ao Olimpo, da terra de amplos caminhos,
Com os belos corpos envoltos em alvos véus,
À tribo dos imortais irão, abandonando os homens,
Respeito e Retribuição; e tristes pesares vão deixar
Aos homens mortais. Contra o mal força não haverá!”

Brecht não apenas se angustia, mas sofre e se desespera. “Respeito e Retribuição” abandonam os homens em direção ao Olimpo, aos imortais, e deixam os homens sós com seus eternos conflitos, suas eternas guerras. Escreve Hesíodo (2019, p. 35), no mesmo livro, um poema sobre a Justiça. Canta que “Ela segue chorando as cidades e os costumes dos povos/ [Vestida de ar e aos homens levando mal] / Que a expulsaram e não a distribuíram retamente.” Brecht, Hesíodo, Kafka: Como não viver suas guerras, suas angústias, seus desesperos, seus páthos. Viver é estar entregue ao desconhecido que angustia. 

Ao mesmo tempo Platão (2015) fala, no Fedro ou do Belo, que a linguagem é phármakon, palavra grega de difícil tradução que pode denotar remédio, veneno ou cosmético. A linguagem pode ser uma ferramenta estética, pode ser uma terapêutica e pode ser o motor de uma enfermidade. A alma (Psyché) só agoniza quando está amalgamada com o corpo e necessita da linguagem não como fim (Platão faz uma crítica à linguagem escrita, especificamente aos signos, como fonte de conhecimento, sendo a escrita apenas uma espécie de catalizador para a o conhecimento que já está em nós, sendo algo morto caso não haja ninguém que a leia), mas como meio, como o que faz acordar. Platão prefere o diálogo racional, a dialética, a fala, mas ainda assim a coloca como ferramenta para a reminiscência, para a alma que lembra os conhecimentos eternos que contemplou no Mundo das Formas, conhecimentos que nela estão eternamente. Para Platão (2015), agora no Fédon ou Da Alma, filosofar é dar o necessário ao corpo, fonte de angústia, e cultivar a alma, fonte de conhecimento. Se ao morrer, o corpo perece, mas a alma não (visto que a vida sempre torna a aparecer), ela viaja para o seu lugar natural, caso bem cultivada, e contempla as Formas, o filósofo não deve ter medo de morrer, mas sim encarar a morte como um bem. Platão diz, então, que filosofar é aprender a morrer.

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