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Fragmentos sobre a crítica presente na aforística

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  I A meio caminho entre uma metáfora e uma metonímia sobre a tekhné aforística, essa condensação de potência semântica, essa vibração vivificada por um vitral que explode em cores várias: o aforismo é como uma lâmina que corta fendas diligentemente, mas também é preciso segurar o corte, enquanto lâmina, para decifrar a fenda mesma. Aqui uma “faca só lâmina” de João Cabral, seus poemas cortados na pedra, fendendo-a, fendem a matéria desiludida da poética ao condensar sua semântica e sua forma. II O aforismo desempenha o papel teatral da impossibilidade da construção de uma verdade talhada na arte do dizer muito ao dizer pouco, ao mesmo tempo que comporta uma derrisória crítica do absolutismo e da monarquia da verdade ipsis verbis , por essas mesmas palavras. Diderot apontou o trabalho do ator como um paradoxo: o páthos assentado na atuação é genuíno? Posto que a atuação mesma, produto da ordenação estética e figurativa do palco, artificializa as paixões do próprio ator que ...
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Breve tríptico para uma estética da Noite: uma exposição arbitrária da poética da escritura em poucos  exemplares   I – O simbolismo e a noite A Noite sempre esteve no imaginário da humanidade, tenha o alcance que tiver este conceito moderno, como um símbolo. É talvez primeiro em Hesíodo e sua Teogonia e nos aedos gregos que Nyx , a deusa que representa a noite, filha do Caos, irmã de Érebo , a escuridão, aparece como uma das muitas efígies de imagens míticas, poéticas, físicas, históricas, já que os gregos não separavam a natureza, a phýsis , do mythos , das suas narrativas simbólicas, visto mais claramente nos poemas homéricos e hesiódicos bem como na historicidade das tragédias que recuperam o imaginário dessas narrativas de uma maneira distinta. Ora, a Noite dá saltos para a estética literária moderna. Num conto chamado A Noite , Maupassant abre assim sua pequena narrativa: “Amo a noite com paixão. Amo-a como se ama um país natal ou uma amante, com um amor instintivo, pro...
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  “Mas, com todo esse entusiasmo pelas coisas belas e esse gênio fértil que p ossui, você não inventou nada?” Diderot “Cada objeto amado é o centro de um paraíso” Novalis   Um materialista inc urável, compilador de saberes e coeditor da E nciclopédia como Diderot e um dos pais do romantismo alemão, eivado de poeticidade e filosofia mística como Novalis tem aspectos em comum mais do que gostaríamos ou perceberíamos: Ambos consideram o espírito do homem uma comédia  (mas não apenas) .  Tanto do desejo quanto do drama, tanto da filosofia quanto da crítica, mas também do amor. Em “A religiosa”  e  no “Paradoxo sobre o comediante” ,  respectivamente,  Diderot critica fortemente a clausura da intolerância religiosa e a incapacidade do artista expressar   in natura  a si mesmo enquanto espelha um personagem para uma  kathársis , ao mesmo tempo que é senão o próprio artista a expressar por seus meios os artifícios da poética do drama . É em...

Voltaire, Sócrates e Empédocles: duas Aporias e a exuberância das emanações da Natureza

Mas é preciso cultivar nosso jardim Voltaire Conhece-te a ti mesmo Sócrates (Delfos e seu oráculo, Sócrates e seu  Dáimon )   O Cândido ou o Otimismo de Voltaire é uma vertiginosa e veloz viagem pelo mundo, de  Westfália  a Eldorado, de Portugal à Espanha, da América a França, em dias, uma  K inésis   narrativa sem precedentes,  onde Cândido, o otimista, passa a perceber que o seu mestre  Pangloss  estava entregue a uma ilusão, a uma portentosa quimera metafísica (que não faz de modo algum  jus  a uma crítica séria a filosofia de Leibniz, óbvia intenção, entre outras, do texto de Voltaire: a sátira a teoria da harmonia  estabelecida por  Leibniz onde todo o mal, físico e moral, é uma ilusão , visto que tudo concorre harmoniosamente ( monadologia ) num u n iverso múltiplo onde cada  mínima  parte (as  mônadas ) são diferentes entre si e comportam o universo inteiro em cada uma, de diferentes maneiras, sem ser...

Pequeno ensaio fragmentário sobre o erotismo

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Os dados de Eros são somente insanidades e estridores Anacreonte Os conflitos de sentimentos que apresentamos separadamente não independem uns dos outros, são unidos em pares. Freud   Fragmentos, Fragmentos.  Os  “ dados ”  de Anacreonte, sua profusão de sentido num fragmento (fr. 398) datado do século VI A.C, não estão semanticamente distantes da psicologia das profundezas freudiana  do século XIX-XX , onde o conflito, as  in sanidades e estridores , são dado s  de  uma  espécie de jogo  como quis Anacreonte, poeta do vinho e do amor, do culto a Dioniso. Que em Freud aparece como   exemplar da   amálgama  entre vivência e constituição, tipicamente exposta sob o jugo do conflito , onde o caminho ínclito da sublimação oferece um resultado ao  P áthos  enquanto transformação do negativo da repressão e não eliminação da diferença e do conflito posto . As distâncias ontológicas são exuberantes, entretanto, visto que ...
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  Acerca de um poema de Rilke e uma possível relação com a psicopatologia freudiana da neurose I O poema Der Panther pertence à fase dos Novos Poemas, amplamente influenciados pela plástica de Rodin e Cézanne, o primeiro responsável pela renovação estética da escultura desde o Renascimento; o segundo, na pintura, a invenção de uma nova maneira de dispor a técnica da representação da luz e da visão, o impressionismo. Diferente dos poemas místicos da primeira fase, dos metafísicos das Elegias de Duíno e dos sublimes sonetos a Orfeu, os poemas influenciados pela arte plástica moderna são como blocos de imagens, quase palpáveis, quase sólidas, conjugando modernidade e forma fixa. Reproduzo o poema na tradução de José Paulo Paes: Seu olhar, de tanto percorrer as grades, Está fatigado, já nada retém. É como se existisse uma infinidade de grades e mundo nenhum mais além. O seu passo elástico e macio, dentro Do círculo menor, a cada volta urde Como uma dança de força: no centr...
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  O corpo e a mente Sua fisionomia anunciava sua alma Voltaire I Nos fragmentos póstumos Nietzsche (2010) diz que “se o centro da ‘consciência’ não coincide com o centro fisiológico , então seria de qualquer modo possível que, apesar disso, o centro fisiológico também fosse o centro psíquico ”. Ora, a fisiologia a que Nietzsche se refere é tanto uma apropriação do discurso científico quanto uma crítica à ciência. A fisiologia nietzschiana se refere ao soma , para usar a terminologia dos trágicos, ou mais apropriadamente ao agon , ao agônico, termo que representa a personificação grega da disputa e do conflito, mas também semanticamente relacionado ao termo jogo, competições esportivas e artísticas. Aqui portanto a fisiologia é corpo enquanto encontro de conflitos e disputas, como na ciência, mas não é o corpo do materialismo científico, do naturalismo, do darwinismo. A linguagem nietzschiana se apropria e se afasta, como um fole de gaita, dos discursos que o pensador se n...