Voltaire, Sócrates e Empédocles: duas Aporias e a exuberância das emanações da Natureza




Mas é preciso cultivar nosso jardim

Voltaire


Conhece-te a ti mesmo


Sócrates (Delfos e seu oráculo, Sócrates e seu Dáimon)

 

O Cândido ou o Otimismo de Voltaire é uma vertiginosa e veloz viagem pelo mundo, de Westfália a Eldorado, de Portugal à Espanha, da América a França, em dias, uma Kinésis narrativa sem precedentes, onde Cândido, o otimista, passa a perceber que o seu mestre Pangloss estava entregue a uma ilusão, a uma portentosa quimera metafísica (que não faz de modo algum jus a uma crítica séria a filosofia de Leibniz, óbvia intenção, entre outras, do texto de Voltaire: a sátira a teoria da harmonia estabelecida por Leibniz onde todo o mal, físico e moral, é uma ilusão, visto que tudo concorre harmoniosamente (monadologia) num universo múltiplo onde cada mínima parte (as mônadas) são diferentes entre si e comportam o universo inteiro em cada uma, de diferentes maneiras, sem serem afetadas externamente entre si, todo seu poder vindo internamente, numa dança de harmonia pré-estabelecida onde mesmo as catástrofes concorrem para o melhor dos mundos possíveis, parcamente elucidando a complexa teoria do filósofo alemão, que permanecerá incompreendido ainda por muito tempo ou indefinidamente.

Sócrates exerce a atividade da aporia, por meio da dialética, desatando os nós do senso comum e partindo do princípio, geral entre os gregos, de que a phýsis está aí para ser desvelada, se mostra para o uso da razão ou para o engano dos sentidos, se mostra (Alethéiaenquanto existência, regida pelo Nous (inteligência) que ordena os eventos ontológicos (expresso em Aristóteles enquanto Kosmos, universo ordenado, conceito anterior à ele, contudo fortemente presente na sua Física), cabendo a nós mesmos relembrar o que foi esquecido (Platão: Fédon, Mênon, República, Teeteto). Contudo, nos textos da fase socrática de Platão a dialética encontra o impossível, o insolúvel, a Aporia, onde no fim do diálogo não há resposta possível para o tema como o referido Mênon, Teeteto ou o Lísis, o Cármides, o Laques. 

Mas é um filósofo da natureza anterior a esses baluartes que argumenta, Empédocles de Agrigento, fortemente criticado por Sócrates e seus sucessores, que tudo resulta da mistura de quatro elementos primordiais (água, terra, fogo e ar), combinando e desintegrando as múltiplas manifestações da existência sob dois princípios básicos: a Philia (amor, amizade) e Neikos (ódio). Problemática que aparecerá, direta ou idiretamente, (não apenas o pensamento de Empédocles mas o pré-socrático de maneira ampla) no Protágoras, no Górgias, do Filebo, no Lísis, no Teeteto, na República, no Sofista, todos produtos da dialética de Platão, para citar os mais flagrantes textos contra os sofistas e contra ou complementando os filósofos da natureza (como são exuberantes os argumentos de Empédocles e dos pré-socráticos, ao seu modo de arrebatamento filosófico para uma tentativa de desvelamento da verdade)

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