Fragmentos sobre a crítica presente na aforística





 

I

A meio caminho entre uma metáfora e uma metonímia sobre a tekhné aforística, essa condensação de potência semântica, essa vibração vivificada por um vitral que explode em cores várias: o aforismo é como uma lâmina que corta fendas diligentemente, mas também é preciso segurar o corte, enquanto lâmina, para decifrar a fenda mesma. Aqui uma “faca só lâmina” de João Cabral, seus poemas cortados na pedra, fendendo-a, fendem a matéria desiludida da poética ao condensar sua semântica e sua forma.

II

O aforismo desempenha o papel teatral da impossibilidade da construção de uma verdade talhada na arte do dizer muito ao dizer pouco, ao mesmo tempo que comporta uma derrisória crítica do absolutismo e da monarquia da verdade ipsis verbis, por essas mesmas palavras. Diderot apontou o trabalho do ator como um paradoxo: o páthos assentado na atuação é genuíno? Posto que a atuação mesma, produto da ordenação estética e figurativa do palco, artificializa as paixões do próprio ator que as faz reverberar no público, mas não nele mesmo. O “paradoxo do comediante” diderotiano faz papel de aforismo.

III

 Perscrutando um aforismo/fragmento de Novalis:

“Humanidade é um papel humorístico”

Uma verdade posta como crítica da verdade. O verbo de ligação “é”, em sua acepção filosófica, exporia o “Ser” (erroneamente, nada heideggeriano, nada Kierkegaadiano) da Humanidade: ela é (seria? foi?), então, um papel humorístico. Mas não há silogismo ou lógica estreita e formal que comporte essa afirmação, o que faz do aforismo uma crítica a essa estruturação absoluta. Uma centelha de verdade, para Nietzsche, mas que permanece a criticar o substrato da verdade, é o aforismo. Novalis satiriza a verdade com uma verdade condensada pela poética do aforismo.

IV

A possibilidade estética do aforismo está numa tensão entre o que é construído como sentido e o que poderia ter sido construído como sentido. Entre esses dois extremos está a crítica, a condensação não terminada de uma verdade que aparece como um raio de verdade. Um aforismo bem talhado nunca está inteiramente talhado. Não só como ligadura estética mas como verdade contra a Verdade.

V

“Uma faca só lâmina”. O aforismo produz fendas também no próprio aforista.

VI

Há um caráter ínclito e prosaico, sublime e derrisório. Não enquanto dualidade mas enquanto crítica fundada numa posição estética. Pascal produz nos Pensamentos um:

“A força é a rainha do mundo, e não a opinião; mas, é a opinião que usa da força.”

A oposição entre força e opinião é apenas aparente. O que pretende Pascal aqui é criticar uma verdade corrente e denotativa utilizando os critérios de avaliação dessa mesma verdade, poetizando-os contudo. “Força”, “Mundo” e “Opinião” não aparecem domados, pelo menos não somente, por Éris, mas também pelas Musas. Todavia, essa dominação não delimita apenas o escopo estético ou de sophía do aforismo. Os conceitos supracitados devolvem também uma tensão por condensação, algo semelhante à “contração” de uma preposição e um artigo na sintaxe e suas declinações (no = em + o) ou nomes semanticamente ricos por sua junção de palavras em apenas uma (plenilúnio = lua plena, lua cheia). Devolvem também uma estrutura tensionada da crítica fundada numa verdade poética. O dualismo aparente cede lugar a uma condensação múltipla de sentidos poéticos. As Catacreses (metáforas gastas e incrustadas no senso comum), as Perífrases (circunlóquios, rodeios de linguagem para dizer algo ao expandir seu campo semântico tornando menos objetivo), a Metáfora da “força como rainha do mundo”, a Metonímia que alcança os termos “opinião” e “força” como substitutos dos que fazem/movem opinião e força, a saber: os sujeitos, as sociedades, as culturas, tudo isso alcança píncaros poéticos, Tropos retóricos, de uma verdade esteticamente fundada na crítica da verdade do campo da ousía.

VII

Platão expõe magistralmente no seu Fedro uma pequena passagem sobre a Manía (loucura), em que os poetas são tomados por um furor divino ao escrever suas obras (os aforistas são portas, mas são também troçadores e iconoclastas). Ou mesmo no Banquete, na República, no Mênon, recorrendo a funções míticas sobre Eros (Amor), Diké (Justiça), a Areté (virtude), Platão hospeda uma estética. Algo distante da semântica platônica, mas semelhante, é a Hybris (excesso) Aristotélica presente na Ética a Nicômaco e na Política, especialmente, e sua Dynamis (potência), Mimesis (imitação), Katharsis (catarse) em tratados como a Metafísica, Poética, Da alma, Física, entre outros produzidos pelo filósofo estagirita criador da escola peripatética. Mas que tem essas duas égides da filosofia grega clássica com a aforística? Pouco. Mas alguns conceitos, se reaproveitados, dizem algo da construção mesma de certos aspectos das “centelhas de verdade” que são os aforismos. Todo o Mito de Pigmalião ou de Aracne ou de Faetonte retratados nas Metamorfoses de Ovídio, para selecionar pobremente apenas três, tem força aforística: sua voltagem poética expressa um positivo/negativo tragicômico típico do Mito, do Mythos (narrativa). Assim como a renovação dos conceitos Platônico-aristotélicos dão azo à novas maneiras de pensar o fragmento e o aforismo: pelo seu caráter de fusão mítico-filosófica-crítica. Como os quadros de Munch.

VIII

As romãs do belo soneto de Valéry e as Nêsperas da bela e cômica criação mítica de Rabelais tem em comum a explosão lírica do fruto da vida. Em ambos a vida não está submetida ao protocolo da fixidez, mas à graça e doçura e comicidade do alimento que desintegra ficcionalmente. Em Valéry explode em gemas de carmim a sua secreta arquitetura, parafraseando o poeta, e em Rabelais, durante o nascimento do personagem Pantagruel, numa seca inimaginável, as Nêsperas são comidas com tamanha avidez que comicamente fazem crescer, em diferentes indivíduos, diferentes partes do corpo, acentuando a multiplicidade, num tom brutalmente cômico.

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