Breve tríptico para uma estética da Noite: uma exposição arbitrária da poética da escritura em poucos exemplares
I – O simbolismo e a
noite
A Noite sempre esteve no imaginário da humanidade, tenha o
alcance que tiver este conceito moderno, como um símbolo. É talvez primeiro em
Hesíodo e sua Teogonia e nos aedos
gregos que Nyx, a deusa que
representa a noite, filha do Caos, irmã de Érebo,
a escuridão, aparece como uma das muitas efígies de imagens míticas, poéticas, físicas, históricas, já
que os gregos não separavam a natureza, a phýsis,
do mythos, das suas narrativas
simbólicas, visto mais claramente nos poemas homéricos e hesiódicos bem como na
historicidade das tragédias que recuperam o imaginário dessas narrativas de uma
maneira distinta. Ora, a Noite dá saltos para a estética literária moderna.
Num conto chamado A Noite,
Maupassant abre assim sua pequena narrativa:
“Amo a noite com
paixão. Amo-a como se ama um país natal ou uma amante, com um amor instintivo,
profundo, irrefutável.”.
O pequeno conto é quase todo um elogio à Noite, assim como os Hinos à Noite de Novalis ou mesmo a
Noite de Valpúrgis da primeira parte do Fausto
do Goethe, caótica, erótica, cheia de bruxas e diabos e festas e orgias, mas
ainda assim um profundo elogio ao movimento esotérico noturno.
Que é a noite senão a morte do crepúsculo do dia e o nascimento
da manhã de um outro dia.
II – O pessimismo e a noite
Doce e clara é a noite
e sem um vento
Leopardi
Os astros lá em cima, desconhecidos, lançados ao acaso na imensidão do céu, onde desenham essas figuras
estranhas que tanto fazem sonhar.
Maupassant
São nos poemas A noite
do dia de festa ou À lua ou O pôr da lua que Leopardi trata de
forma mais definida sobre o tema da noite, sempre eivado de seu pessimismo
iminente, traço indelével de sua poesia. Assim é para ele não só a noite, mas
também a noite. Poeta semelhante a Leopardi é Pavese, entretanto com enormes
diferenças notáveis, em um trecho de seu poema A noite:
“Mas a noite de ventos, a límpida noite
que a lembrança roçava de leve, é remota,
é lembrança.”.
Ou no seu Noturno:
“As palavras que dizem não se
correspondem
com a dura tristeza estampada no céu.
És apenas uma nuvem docíssima, branca,
enredada na noite entre ramos antigos”.
As visões noturnas dos espectros que pressagiam a derrota
trágica dos Shakespearianos: Brutus, Macbeth, Hamlet. A morte de Ricardo III ou
o nobre e fiel Kent frente à loucura e os raios da tormenta noturna de um Rei
Lear:
“Inda aqui, senhor? Nem seres que
amam a noite
amam uma noite assim. Os céus enraivecidos
espantam até mesmo os andantes das
trevas
e os confinam em seus covis.”
Voltaire, no seu Tratado
sobre a tolerância, cita extensamente a Noite de São Bartolomeu como um
massacre sem precedentes e como exemplo do que pode ocorrer caso a intolerância
reine, e ocorreu numa noite escura e densa. Trakl canta no seu À Noite:
O Azul de meus olhos apagou-se nesta
noite,
O ouro vermelho de meu coração. (...)
Ora, diz Tchékhov no seu conto Iônitch:
“Não havia ninguém.
Quem haveria de ir àquele lugar à meia-noite?”
Quem senão a noite para encerrar o sol da vida.
III – Noite e plenitude
Quando atinge sua completa grandeza
Reconheço minha bela visitante:
É ela! Negra e no entanto irradiante.
Baudelaire
O poema de Baudelaire é As Trevas,
que menciona a noite assim, como bem vinda, tutto
bene. Poucos vivem a noite em sua plena calmaria. Poe a viveu no terror.
Gogh numa espiral de magnitude. Chopin numa amplitude inescapável. Kafka na
perseguição de um médico rural num quase pesadelo. Mas Rilke a vive assim:
Noite no sul da Alemanha, aberta à
lua cheia
E doce como o regresso nos contos de fadas.
Melville no capítulo O carpinteiro de Moby Dick diz:
Senta-te sultanicamente
entre as luas de Saturno, e imagina um homem solitário abstrato.
É provável que a plenitude da noite seja uma projeção, e nada
além disso sairá daqui sobre esta frase. Nada mais direi como o Ápeiron de Anaximandro, o Indeterminado
essencial.
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