A Linguagem?

Se escrevo excertos como:

I

Acordar: o espectro solar no calço umbroso da manhã quando os olhos levantaram com o corpo. A luz salgada penetrava nos olhos e ardia, os cílios cercados de um âmbar quebradiço e muito seco enquanto o gesso do sono evolava. Seria toda forma de caminhar um erro pródigo? A forma Gaia do sentimento como o óxido iridescente cravado nas reminiscências. Abrir o livro do vulcão da América Latina e ler “No te amo como si fueras rosa de sal, topacio” recordando os dias entre a claridade e a claridade menor. Andar com sono pela casa do avô já morto com parte dos tios enumerados, cheiro envernizado dos móveis e da alma, um mogno do sangue; junto ao barro do solo uma vastidão de trepadeiras escaladas com extrema perícia e cautela pelos pequenos, arremessando cajus e fugindo dos piolhos de cobra quando já finado o frio do bafo serrano. Cabe o desafio maior de ir do portão de ferro mirrado até às proximidades da casa sem pisar no chão e somente pelo sem fim de troncos, nunca amplamente alcançado. Há flores de aço e gelo no ar da manhã rasgando a pele e pondo-a nova quando a poeira se agita, escalando as adversidades do planalto e renovando o tecido aquático que escapa do alto bico de seio da serra da Meruoca como A Capa Rósea. Detenho-me junto ao despertar lento da atmosfera poeirenta e do mato fechado; pedaços dos panos da madrugada presos às cercas de arame e aos sonhos dos símios como estrelas resignadas. O cheiro do feijão sublimando o meio dia contra qualquer movimento que não interesse ao estômago em prece depois da correria feérica. Há uma espécie de humilhação em toda investida contra o domínio esparramado da fome. A fome como o prelúdio da caça, como a cadência das florestas de Schumann ou um lago fracionado de cores em Klimt. A fome como fome, arduamente evitada pelos iluminados. Que é ser lúcido? Amo somente nas dores. Com a fome inequívoca de quem ama a incompletude do leite materno. Amo na estrada dos desencontros, nas tardes onde o crepúsculo é macio. O mundo não apodrece, assiste apenas. Os líquidos canoros dos adeuses entre a mesma fome e a mentira primordial. Gregor Samsa com o fruto cravado nas costas. Não se pode andar sobre o tronco encharcado de insetos de cristal sem lhes matar a fome com a suculenta base do pé.

II

Hamlet, o Orfeu da melancolia, fala que sua disposição para o mundo se perdeu. É estranho gostar de Hamlet? Hamlet, como diria Baudelaire em seu Spleen, é “como um Rei sombrio de um país chuvoso/ Rico, mas incapaz, moço, e no entanto idoso”. A melancolia é um estranhamento sufocado, uma tarde em que o sol não se põe. Em qualquer época da vida, como o fiz diversas vezes, voltar o olhar para uma árvore e imaginar seus muitos sulcos secretos, sua reverberação rígida de vegetal, é de alguma forma um convite à melancolia. A árvore é a vida que se expande enquanto permanece. Como no quadro “Melancolia” de Munch, como um livro de poemas, como a filosofia.

 

III

O matar-se é uma consequência secundária de um desejo mais premente: cessar abruptamente a dor de existir. Esse gozo, tamponamento lacaniano, é o que norteia o suicida, que movimenta sua racionalidade em suspensão. Dostoiévski conta, num de seus maravilhosos contos, que um sujeito pode se suicidar por capricho. O suicídio geralmente culmina depois de uma série de pequenas tragédias cotidianas, lúdicos acessos de dor, dust in the shadows.

IV

É estranho sonhar e ao mesmo tempo tão comum. Acordar entre os próprios escombros como uma ruína renascentista do augusto Império Romano acorda para a modernidade. Como os ossos dos hebreus acordam do cativeiro da Babilônia, marca indelével de sangue e lágrimas. Acordar se insere no magnetismo do absurdo, não tanto como metafísica, mas como um sempre novo transitar entre estados de si, muros incertos invadidos por hera e aleias de sono. Estar na iminência de um ato é estar angustiado, estar pensando no que a vetusta memória guarda como roupas antigas numa gaveta, e com isso se angustiar, é encarar o antigo como passível de ocorrer novamente, como possibilidade. Mas usamos também a palavra angústia para falar de uma disposição que tem a ver com a dor, o incômodo, o obsessivo, a neurose. Nossas dores são quase sempre avant-garde, narrativas em projeção, sempre um passo à frente do “aqui e agora”, projetando para o futuro sua repetição convulsiva, dores líricas no pasto da linguagem, âmago e tronco, enquanto a vida se desenrola como um novelo. Estar angustiado, no entanto, é estar vivo. Pouco percebemos, e às vezes não percebemos em absoluto, o quanto a nossa angústia sinaliza aquele devir, o amplexo de possibilidades que conferem à existência seu caráter intricado e aberto.  Entre escolhas incertas e pálidos escopos, a angústia atua também como exortação ao movimento. Caminhar é se angustiar e se angustiar é, certamente, estar vivo.

V

Nesta praia, quando se deixam significar os búzios taciturnos onde o mar ecoa, as profundezas se elevam indomáveis. Perto dos olhos, liturgicamente, o mar chora. Uma pedra, no sono das coisas que esperam, não espera em nada. Eu me espero, em verdade, como fonte pétrea ou onda revolta ou entre caminhos de seixos onde caminham sombras. Sinto que não amo demais a lembrança. Nela os verbos, caules, são vivos e os dias todos diáfanos como o metal dos signos. Nela está a linguagem do que canta numa bruma interna: uma cadeira, um sorriso, um poema, naturalmente choram. Captá-los o alvéolo cheio de mágoas é significar a si mesmo entre pérolas aladas.

VI

Freud chamou de trauma, ou posteriormente de fantasia de trauma, aquilo que nos invade sem que possamos significar, jazendo ali pleno de afeto, transbordando em formações do inconsciente, essa imensidão que nos cega com suas luzes e trevas. As coisas estão no lugar não como a casa que habita o espaço. Lembro-me da criança de muitos anos atrás: corridas luminosas e olhares infinitos. A infância é também um problema de linguagem, ramas de flores e carvão, mas o que dela me acompanha é, em instâncias particulares, a vontade de flutuar no riso alheio. Platão, no Fedro, usa pela primeira vez seu conceito da tripartição da alma na metáfora do cocheiro em que a parte racional da alma, o cocheiro, deve controlar os dois cavalos: o da honra e o dos apetites. O todo, a carruagem, só adquire harmonia, só se eleva às alturas divinas das formas eternas pelos caminhos da prudência, da razão e da moderação. Que será do homem e seus cavalos rebeldes? Preparar a sela antes da queda? Enredar ao mundo suas travas e cercas de arame? Cavalgue. Há rumo maior que um mar sem guelras, que um rosto sem o próprio rosto: como não saber-me dilúvio? A infância gravita em nós como o lento caminho entre duas mãos. E as pétalas do cordão do umbigo e os cheiros fortes do café preto flutuando entre antigas quimeras. Que estranho é tecer considerações sobre assunto qualquer, ali onde a linguagem pode flutuar com suas proposições ou metáforas, seus conceitos e imagens, onde a lógica ou o sentido é algo que tem função na própria linguagem.

*

O que é isso, a linguagem?

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