Acerca de um poema de Rilke e uma possível relação com a psicopatologia freudiana da neurose

I

O poema Der Panther pertence à fase dos Novos Poemas, amplamente influenciados pela plástica de Rodin e Cézanne, o primeiro responsável pela renovação estética da escultura desde o Renascimento; o segundo, na pintura, a invenção de uma nova maneira de dispor a técnica da representação da luz e da visão, o impressionismo. Diferente dos poemas místicos da primeira fase, dos metafísicos das Elegias de Duíno e dos sublimes sonetos a Orfeu, os poemas influenciados pela arte plástica moderna são como blocos de imagens, quase palpáveis, quase sólidas, conjugando modernidade e forma fixa. Reproduzo o poema na tradução de José Paulo Paes:

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
Está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
Do círculo menor, a cada volta urde
Como uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
Erguem-se em silêncio. Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha
E se apaga quando chega ao coração. (Rilke, 2013, p. 95)

Na neurose a perda da realidade não é tão flagrante, antes existe como fuga e regressão ao infantilismo da fantasia (ainda que essa perda exista em certa medida). No texto Tipos de adoecimento neurótico de 1912, Freud (2018) examina as circunstâncias que podem trazer à tona uma neurose:

a)      Frustração

b)      Fixação

c)       Inibição do desenvolvimento da libido

d)      Quantidade de libido represada a ser elaborada pelo Eu

Não é comum uma causa pura e una que determine uma neurose mas antes um entrelaçamento ou constelação de motivos, circunstâncias e predisposições. A frustração precipita uma cisão a partir do real ante a perda de um objeto amoroso. A fixação é raiz da nossa frequente dificuldade para a renúncia de um objeto amoroso que aparece como inadequação à realidade. A inibição mantém atual o infantilismo da sexualidade em maior ou menor grau. A quantidade de libido represada se refere ao aspecto quantitativo, necessidade de descarga. A neurose aparece então como estigma e égide dessa constelação de fatores.

A pantera de Rilke tem seu olhar cansado, “de tanto percorrer as grades, / Está fatigado, já nada retém.” A forma que o neurótico se relaciona, pensa, age, está circunscrita na sua tendência ou compulsão à repetição. O sujeito percorre as grades, tanto, que o resultado é a fadiga, o enorme dispêndio libidinal que mantém o conflito operando, está tanto frustrado com suas grades como nelas fixado, “a cada volta urde / Como uma dança de força: no centro / delas, uma vontade maior se aturde”. É em A dinâmica da transferência de 1912 e em  Recordar, Repetir e Elaborar de 1914 que Freud mostra essa dança de força, a cada volta do círculo, da repetição pela via da transferência e suas vicissitudes (negativa/positiva) de enorme resistência e possibilidade régia do tratamento, como a forma que o sujeito relembra na transferência suas questões é pondo em ato inconscientemente seus complexos, antes de os elaborar. Segundo Freud (2018, p. 199-200), “Ele não o reproduz como lembrança, mas como ato, ele o repete, naturalmente sem saber que o faz.” A dança de força que Rilke usa como metáfora desvela não só o mecanismo do conflito neurótico mas seu amplexo metapsicológico, uma dança (dinâmica) de forças (economia). Somente o manejo da transferência pelo analista, a livre associação, a fala, a diminuição das resistências da transferência negativa/erótica e do Eu podem contribuir para uma elaboração da doença, um recordar para elaborar e não repetir.

Quando “Certas vezes, a cortina das pupilas / erguem-se em silêncio.”, o sujeito e seu exame de realidade estão de tal modo alquebrados que “uma imagem então / penetra, a calma dos membros tensos trilha / e se apaga quando chega ao coração”. Se apaga porque a libido é retirada dos objetos externos pra ser posta a serviço de uma formação substituta, do mundo infantil da fantasia, da repetição compulsiva, o reprimido retorna deformado e com o nome (também) de sintoma. Em A perda da realidade na psicose e na neurose de 1924, texto muito posterior e de fortes mudanças teóricas e metapsicológicas (o que não invalida suas investigações anteriores, mas as complemente) Freud mostra que a perda da realidade da neurose se dá primeiramente na fuga: o Eu não não remodela a realidade, como na psicose, mas apenas a evita. Contudo, a regressão da libido é retirada dos objetos externos para a fantasia infantil e seus objetos reprimidos. Na psicose ela retorna ao Eu e, como supracitado, remodela com a argila dos pensamentos, fantasias, ideias pré-conscientes e representa um modus diferente de perda do real.

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