
“Mas, com todo esse entusiasmo pelas coisas belas e esse gênio fértil que possui, você não inventou nada?”
Diderot
“Cada objeto amado é o centro de um paraíso”
Novalis
Um materialista incurável, compilador de saberes e coeditor da Enciclopédia como Diderot e um dos pais do romantismo alemão, eivado de poeticidade e filosofia mística como Novalis tem aspectos em comum mais do que gostaríamos ou perceberíamos: Ambos consideram o espírito do homem uma comédia (mas não apenas). Tanto do desejo quanto do drama, tanto da filosofia quanto da crítica, mas também do amor. Em “A religiosa” e no “Paradoxo sobre o comediante”, respectivamente, Diderot critica fortemente a clausura da intolerância religiosa e a incapacidade do artista expressar in natura a si mesmo enquanto espelha um personagem para uma kathársis, ao mesmo tempo que é senão o próprio artista a expressar por seus meios os artifícios da poética do drama. É em O sobrinho de Rameau, sua obra mais cínica, que ele corrói as bases da burguesia em ascensão com seu ascetismo inútil ou útil para uma camada específica de usufrutos. Novalis diz que a humanidade é uma encenação, à semelhança do que diz Macbeth ou do que ocorre em Hamlet, mas uma encenação eminentemente cômica. Para Novalis: “Humanidade é um papel humorístico”, diz ele em um dos seus aforismas. Ou mesmo: “No estado tudo é ação cênica – No povo tudo é jogo cênico. A vida do povo é um espetáculo. Escritos são os pensamentos do estado – os arquivos de sua memória”
Mas há uma insalubridade em seus escritos que, como citei em Shakespeare (e há também em um Freud do Mal estar na civilização, suas elucubrações sobre a guerra e o totemismo), e em todo grande pensador, algo que se mescla a rigor como ambivalência: o pináculo do tragicômico. E nele está situado o erotismo, velado.
(nota bene: o "metadrama", o drama dentro do drama em Hamlet que é organizado pelo protagnoista aparece como uma espécie de tragicomédia satírica representada na corte da Dinamarca para o atual rei, seu tio, que assassinou seu pai, fato revelado pelo espectro do pai morto no início da peça. Ora, Metadrama visando o escopo da percepção pelo tio de sua própria wickedness, inocular o germe do temor de ser descoberta a perversidade do tio ao matar o próprio irmão para tomar sua esposa e seu reino, de maneira explosivamente satírica, fato que, depois dessa representação o tio percebe que Hamlet está ciente do fratricídio, erotismo velado como ódio, melancolia, inação, derrisão, vingança).
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