Pequeno ensaio fragmentário sobre o erotismo




Os dados de Eros são somente insanidades e estridores

Anacreonte


Os conflitos de sentimentos que apresentamos separadamente não independem uns dos outros, são unidos em pares.


Freud

 


Fragmentos, Fragmentos. Os dados de Anacreonte, sua profusão de sentido num fragmento (fr. 398) datado do século VI A.C, não estão semanticamente distantes da psicologia das profundezas freudiana do século XIX-XX ,onde o conflito, as insanidades e estridores, são dadode uma espécie de jogo como quis Anacreonte, poeta do vinho e do amor, do culto a Dioniso. Que em Freud aparece como exemplar da amálgama entre vivência e constituição, tipicamente exposta sob o jugo do conflito, onde o caminho ínclito da sublimação oferece um resultado ao Páthos enquanto transformação do negativo da repressão e não eliminação da diferença e do conflito posto. As distâncias ontológicas são exuberantes, entretanto, visto que o Eros grego era a personificação divina do filho da deusa do Amor, a nascida e cultuada principalmente em Chipre, que segundo Hesíodo (Teogonia) nasceu do sangue e do esperma do falo cortado de Urano (Céu) por Cronos, caindo no pélago do oceano fazendo brotar dali uma deusa de exuberante beleza, filha portanto de uma castração, apesar das diferenças dos mitos e do nascimento de Afrodite, que também é vista como filha direta de Zeus, a deusa da sensualidade e do erotismo, assim como sua contraparte, Atena, a deusa da sabedoria, da prudência, cega e com uma balança a carregar sempre como símbolo da equidade, nasce da cabeça do pai dos deuses. 


Ora, o erotismo é, por ambos, francamente expresso pela via da linguagem (ampliando tanto o conceito de linguagem pela filosofia, linguística, simbologia histérica da conversão, carnavalização bakhtiniana, como o conceito de erotismo, ainda estreitos hoje). O corpo produz sentidos e os sentidos são profícuos, de amplitudes inumeráveis. O gozo se repete (Lacan) enquanto impedimento do desejo, há aí um sentido petrificado. 

Começo pelo poeta grego do vinho e pelo pensador da psicanálise por talvez serem os que mais atenção deram ao tema do erotismo em suas respectivas épocas de transição: Anacreonte (sem esquecermos de Safo e Mimnermo) cantou abertamente o erotismo em sua nudez de sentido e Freud ampliou o conceito de erotismo a uma seara sem precedentes. Talvez apenas alguns nomes sobressaem nesse complexo histórico situado entre Anacreonte e Freud: É o novelesco Boccaccio, o explícito e fantasioso Rabelais com suas fantasias e metáforas intertextuais do nascimento de Pantagruel e as façanhas deste último e de Gargântua, onde a cona, o pênis, as fezes, a gula, a nudez eivada de secreções e excreções do corpo que fala e grita seu erotismo, o cruel Sade e suas fantasias sui generis dignas de Sodoma e Gomorra e uma Babilônia que explode em atrocidades, é Ovído em suas Metamorfoses, é Platão no seu Lísis, no seu Fedro, no seu Filebo, na sua República, é Petrônio no seu fragmentário Satíricon e as peripateia fragmentárias explicitamente cruas e eróticas do pouco que sobrou do romance para a posteridade. Quem senão Sóflocles e Eurípides, Lautréamont e Baudelaire, Aretino e Faulkner, Lawrence e TanizakiBataille e Foucault, Aristóteles e Spinoza, Schopenhauer e Barthes, Mann e Mansfield, Púchkin e MaiakóvskiPropércio e Nabokov, Rilke e Trakl, Rimbaud e Drummond, Leibniz e Descartes, Diderot e Goethe, Blake e Lispector, Rousseau e Pirandello, Svevo e Whitman. Paro por aqui, já incorrendo na comicidade da tautologia com a obviedade tanto do recorrente tema do erotismo na linguagem de manerira geral quanto na impossibilidade de enumerar os enunciados em que o tema foi posto ao longo de uma genealogia sempre incompleta. Ainda que a literatura não se esgote com tão ínfimo material exposto por metonímia pelo presente ensaísta, o conteúdo explícito do erotismo veiculado pela linguagem é inesgotável.

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