O corpo e a mente
Sua fisionomia anunciava
sua alma
Voltaire
I
Nos fragmentos póstumos Nietzsche
(2010) diz que “se o centro da ‘consciência’
não coincide com o centro fisiológico,
então seria de qualquer modo possível que, apesar disso, o centro fisiológico também fosse o centro psíquico”. Ora, a fisiologia a que Nietzsche se refere é tanto uma
apropriação do discurso científico quanto uma crítica à ciência. A fisiologia
nietzschiana se refere ao soma, para
usar a terminologia dos trágicos, ou mais apropriadamente ao agon, ao agônico, termo que representa a
personificação grega da disputa e do conflito, mas também semanticamente
relacionado ao termo jogo, competições esportivas e artísticas. Aqui portanto a
fisiologia é corpo enquanto encontro de conflitos e disputas, como na ciência,
mas não é o corpo do materialismo científico, do naturalismo, do darwinismo. A
linguagem nietzschiana se apropria e se afasta, como um fole de gaita, dos
discursos que o pensador se nutria desde sua gênese filológica até seu último
livro. É célebre também a apropriação que Spinoza faz da mente e do corpo:
mente e corpo são uma só e mesma coisa, a primeira tomada como coisa que pensa e último tomado como coisa extensa, aqui revelando a flagrante influência da modernidade
cartesiana, da res cogitans e da res extensa. Ainda que Spinoza seja um
dos críticos de Descartes, se apropria e se afasta do léxico de que dispunha,
recriando o sentido. Spinoza diz
“Mostramos no esc. Da prop. 17 da P.2,
que a ideia que constitui a essência da mente envolve a existência do corpo por
todo o tempo que esse corpo existir. Além disso, segue-se, do que demonstramos
no corol. Da prop. 8 da P.2 e no seu esc., que a existência presente de nossa
mente depende apenas disso: que a mente envolve a existência atual do corpo. Mostramos,
finalmente, que a potência da mente, em virtude da qual ela imagina as coisas e
delas se recorda, igualmente (vejam-se as prop. 17 e 18 da P.2, juntamente com
seu esc.), do fato de que a mente envolve a existência atual do corpo”
(Spinoza, 2007, p. 179)
Diferente de Descartes, aqui
a mente envolve a existência atual do corpo. Não porque ela é dele diferente,
mas porque ela é tomada de um modo específico, a saber, o do pensamento,
enquanto o corpo é a mesma coisa tomada pelo modo da extensão. Ora, que
Nietzsche tenha notado em Spinoza uma espécie de gênio afirmativo e um seu
irmão, que rejeita a dicotomia cartesiana, que a subverte, é simples de compreender.
II
“Maiores partes de vida
contém maiores partes de viver”
Heráclito
Freud, com o conceito de
pulsão, está numa situação semântica semelhante: a pulsão está no limiar do corpo
e da alma, não separando-os, mas mostrando que ambos são simultâneos e não são
feitos de substancias diferentes. A histeria aparece como o estandarte do
corpo-mente, como amálgama, uma aporia, em que os conflitos psíquicos inconscientes são
traduzidos, pelo fenômeno da conversão, em sintomas somáticos, corporais, resultado
de um alívio de tensão desse mesmo conflito. Spinoza especifica essa simultaneidade
na sua Ética desta maneira, quando fala sobre que é a existência do corpo e da
mente e da sua atividade:
“Sem dúvida, tudo isso mostra
claramente que tanto a decisão da mente, quanto o apetite e a determinação do
corpo são, por natureza, coisas simultâneas, ou melhor, são uma só e mesma
coisa, que chamamos decisão quando considerada sob o atributo do pensamento e
explicada por si mesma, e determinação, quando considerada sob o atributo da
extensão(...)” (Spinoza, 1007, p. 171)
Ou com Freud para a
histeria:
“Nisso devemos lembrar a questão,
frequentemente colocada, de se os sintomas da histeria são de origem psíquica
ou somática, ou se, admitindo-se a primeira, todos tem de ser psiquicamente
determinados. Essa questão, como tantas outras que os pesquisadores procuram em
vão responder, não é adequada. O estado real das coisas não se encontra na
alternativa que ela propõe. Pelo que posso ver, todo sintoma histérico requer a
contribuição dos dois lados. Ele não pode se produzir sem alguma complacência somática, que é
proporcionada por um evento normal ou patológico num órgão ou ligado a ele. Não
se produz mais que uma vez – e a capacidade de se repetir é da natureza do
sintoma histérico – se não tem uma significação psíquica, um sentido. O sintoma histérico não vem com
esse sentido; este lhe é emprestado, como que soldado a ele, e em cada caso o
sentido pode ser outro, conforme a natureza dos pensamentos reprimidos que
lutam por expressar-se. (Freud, 2016, p.216 e 217, grifos do autor)
Essa luta por expressão está
semanticamente relacionada ao agon
ou, aqui tomando uma expressão própria de Nietzsche: Vontade de potência: vontade
de mais vontade, tendências caóticas em conflito que buscam se afirmar, gerando
perspectivas, movimento, vir-a-ser. Ainda que o conceito de vontade de potência
seja pela via do excesso, enquanto em Freud o conflito é tanto pela via do
excesso como pela via da falta. Mas cabe supor que em Freud e em Nietzsche a
falta não seja assim tão diferente: em Nietzsche a falta (ora ascetismo, ora
negação da vida) é ela mesma vontade de potência que foi interrompida, mas
tomou outro rumo, o ressentimento, ainda abrindo caminho, se interiorizando, se
afirmando, criando o Eu, a litania da moral, o animal que calcula, que pensa,
que tem consciência de si. Em Freud a falta é, também, ressentimento, pensamento como catexia, objeto
amoroso que se esvai, que retorna como sintoma, que é conflito: A falta
interioriza o sujeito freudiano, estabelece seu Eu.
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