Que é o Eu?
“O Uno é todas as coisas e
não é nenhuma delas”
Plotino
De onde vem a noção de Eu? De unidade
consigo mesmo? de indivíduo subjetivo? De que sou a mim mesmo e não um outro? A
linguagem está nesses questionamentos sendo seu veículo. Na teoria freudiana da
construção do aparelho psíquico há a noção de Eu ideal, onde o bebê está para
si como uma Unidade e o mundo apenas um prolongamento do seu ser. Platão, no
Timeu, fala do Demiurgo uno e perfeito que cria o universo e o preenche com
alma (psyché), um universo vivo.
Descartes, nas suas meditações sobre a filosofia primeira, pelo exercício da
dúvida hiperbólica chega ao pensamento puro, onde o duvidar que penso já é
estar pensando, portanto não posso duvidar que penso, única certeza possível: res cogitans, o puro pensar. Descartes
deduz o cogito como um axioma, mas o “eu penso” é uma tautologia, visto que o
Eu cartesiano já é o puro pensar. Seria o Eu uma metalinguagem ou uma repetição
egoica da linguagem?
Shakespeare foi um dos grandes artistas do teatro que explorou, dentre outros vários temas, a questão da cisão do Eu. Cassius, personagem da tragédia histórica de Júlio César de Shakespeare, se preocupa com Brutus, seu amigo, e o questiona, logo no início do primeiro ato, já revelando o tom trágico da peça:
Cassius
“Brutus,
há tempos que, ao observá-lo,
Não vejo em seu olhar a suavidade
Nem as marcas de amor que outrora via.
A sua mão anda pesada e estranha
No trato deste amigo que o estima”
Brutus
“Não se iluda; se tenho o olhar velado,
Só volto a irritação do meu semblante
Para mim mesmo. Tenho, ultimamente,
‘Stado irritado com paixões diversas
E conceitos que só a mim concernem,
Que acaso afetam meu comportamento.
Mas não quero que isso fira amigos
(E dentre esses Cassius sempre esteve),
Nem deduza da minha negligencia
Senão que Brutus, com ele mesmo em guerra,
Esquece de mostrar amor aos outros”
(Shakespeare, 2017, p. 314)
Este ainda é um dos primeiros
diálogos da peça, no primeiro ato. Mas é sabido que Brutus foi coagido a
conspirar contra Júlio César e o assassinou na data dos Idos de Março. Mas
Brutus está “com ele mesmo em guerra” e “Esquece de mostrar amor aos outro”. O
longo monólogo inicial de Ricardo III (Duque de Gloucester) que lamenta a paz
que se encontra a Inglaterra, lamenta a falta do belicismo que tornaria
propício seu desejo de poder. Monólogo pleno de ironia, desprezo, comicidade e sarcasmo:
Ricardo
“Agora, o inverno de nosso
desgosto
Fez-se verão glorioso pelo sol de York
E as nuvens que cobriam nossa casa
‘Stão todas enterradas no oceano.
Nossas frontes ostentam as coroas
Da glória, os braços erguem-se em estátua;
O alarma foi mudado em bons encontros;
As marchas, em compasso de alegria.
E a guerra – com o semblante transformado –
Em vez de galopar corcéis hirsutos
Para aterrar as almas do inimigo,
Vai saltitar no quarto de uma dama
Ao lascivo tanger de um alaúde.
E eu, sem jeito para o jogo erótico,
Nem para cortejar o próprio espelho;
Que sou rude, e a quem falta a majestade
Do amor para mostrar-me a uma ninfa;
Eu, que não tenho belas proporções,
Malfeito de feições pela malícia
Da vida, inacabado, vindo ao mundo
Antes do tempo, quase pelo meio,
E tão fora de moda, meio coxo,
Que os cães ladram se deles me aproximo;
Eu, que nesses fraquíssimos momentos
De paz não tenho um doce passatempo
Senão ver minha própria sombra ao sol
E cantar minha própria enfermidade,
Já que não sirvo como doce amante,
Para entreter esses felizes dias
Determinei tornar-me um malfeitor
E odiar os prazeres destes tempos.
Armei conspirações, graves perigos,
Profecias de bêbados, libelos,
Para pôr meu irmão Clarence e o rei
Dentro de ódio mortal, um contra o outro.
E se o Rei Eduardo for tão firme
Quanto sou falso, sutil e traiçoeiro,
Inda este dia Clarence será preso,
Pois uma profecia diz que “G”
Será o algoz dos filhos de Eduardo.
Fujam, pensamentos. Aí vem Clarence.
Há também os questionamentos
existenciais que florescem de dor num monólogo de Hamlet frente a necessidade
de matar o tio, que assassinou seu pai, este último aparecendo sob a forma de
um espectro que desvela toda a verdade do crime e o exorta a fazer justiça, o
que o faz perder a vontade de viver e de estar no mundo:
“Eu vou
dizer por que. Que assim antecipo sua revelação, sem que se perca uma pluma
sequer do segredo que devem ao rei e a rainha. Eu perdi nesses últimos tempos,
não sei por que, todo o contentamento, larguei o hábito dos exercícios; E ando
com o espírito tão pesaroso que essa bela estrutura, a terra, me parece um
estéril promontório; esse magnânimo dossel, o ar – olhem – esse esplendido e
suspenso firmamento, esse majestoso teto com franjas de ouro flamejante, ah,
isso para mim não passa de um fétido e pestilento agregado de vapores. Que
obra-prima o homem! Tão nobre em sua razão, tão infindo em faculdades, em forma
e movimento quão rápido e admirável, na ação tão próximo dos anjos, na
apreensão tão semelhante a um deus: a beleza do mundo, o paradigma dos animais
– mas que é isso para mim senão a quintessência do pó? O homem não me dá prazer
– nem a mulher, embora os sorrisos de vocês pareçam dizer outra coisa.”
Cleópatra dando adeus a seus
serviçais e ao mundo após a notícia da morte de seu amado Marco Antônio
Cleópatra
“Deem-me
o manto. Ponham-me a coroa.
Tenho ânsias imortais em mim. Não mais
O néctar de uva molhará meus lábios.
Depressa, Iras! Depressa! Como que ouço
Antônio que me chama. Vejo-o erguer-se
Para louvar meu nobre ato, e rir-se
Da ventura de César – a que os deuses
Dão em desculpa a cólera divina.
Meu marido, eu já vou! Minha coragem
Me dá direito ao uso desse nome!
Sou ar e fogo; os outros elementos
Dou a vida mais baixa. Tudo pronto?
Tomem-me o calor final dos lábios.
Adeus, gentil Charmiana. Iras, Adeus.
(beija-as. Iras cai morta)
Tenho eu veneno nos meus lábios? Morre?
Se ela tão fácil rompe com a vida
A morte é como o gesto de um amante
Que fere e é desejado. Está imóvel?
Se assim desmaia, afirma que este mundo
Não vale o nosso adeus.
Charmiana
Rompam-se
em chuva, nuvens, pr’eu dizer
Que os deuses choram
Cleópatra
Isso me faz vil
Se ela chegar primeiro ao meu Antônio,
ele a interrogará, dando-lhe o beijo
que será o meu céu.
(Para a serpente, que ela aplica contra o seio.)
Vem, miserável;
Com teus agudos dentes o intricado
Nó da vida desfaz. Apressa agora,
Assassina insensata, o desenlace.
Se pudesses falar eu te ouviria
Chamar César de asno ingênuo!
Charmiana
Ó
Estrela do Oriente!
Cleópatra
Paz! Paz!
Não vê aqui meu filho que, no seio,
Adormece sua ama?
Macbeth, ao receber a morte da
sua sangrenta esposa, demonstra profundo desprezo pela condição da vida,
portanto também de si:
Macbeth
“Teria de morrer alguma vez:
chegaria a ocasião para a notícia. –
Amanhã, e amanhã e outro amanhã
Rasteja dia a dia em miúdo avanço,
até a última sílaba da história;
E os nossos ontens alumiaram, todos
a estrada que nos leva, a nós, ingênuos,
ao pó da morte. Apaga-te, oh apaga-te,
precária vela! A vida é tão-somente
uma sombra que passa; um pobre ator,
que no palco empertiga-se e entedia-se
em sua hora e depois não mais é ouvido:
é uma história narrada por idiota
cheia de som e fúria que não querem
dizer nada.”
Em Shakespeare a condição do Eu
que sofre, monologa, entra em conflito, pondera, subverte, amplifica, é
seminal. Mas, de onde vem a noção de Eu? De onde vem a emanação de si onde os
personagens se referem a si mesmos como objeto de suas digressões e complexos? Também
em Goethe, nas plagas do Romantismo, fortemente influenciado por Shakespeare,
Fausto pergunta a Margarida
Fausto
“É o que dizem no universo
Todos os corações sob a etérea paragem
Cada qual em sua linguagem;
Por que na minha, eu, não?”
(Goethe, 2009, p. 383)
A linguagem que supostamente
encerraria um Eu que se contradiz ao mesmo tempo que se vê a si mesmo como Uno
se reflete na sensação do não-dito, daquilo que não se pode significar. Leibniz
elabora um sistema de metafísica amplo e complexo onde as substancias simples,
pontuais, irredutíveis, são o que ele chama de Mónades, conceito neoplatônico por ele retomado e resinificado,
que, ao mesmo tempo que são as partes mínimas, pontuais, portanto incorpóreas,
de tudo, contém em si mesmas um universo inteiro e independente, cada uma
diferente de si. Como são pontuais e fechadas em si mesmas, Leibniz argumenta
na sua Teodiceia que
“Toda
substancia simples (isto é, toda substancia verdadeira) deve ser a verdadeira
causa imediata de todas as suas ações e paixões internas e, falando com rigor metafísico, ela não tem outras,
salvo aquelas que ela produz” (Leibniz, 2013, p. 405)
Deus é
portanto a Mónade primitiva que criou
todas as outras, visto que nenhuma poderia vir de um composto (feito de
partes), mas de apenas de um Ser pontual perfeito e primeiro. Para Leibniz tudo
o que existe, o universo, o Todo, é harmônico e coeso e cada mínimo movimento
local se expande e é “sentido” em toda a sua amplitude. Nos seus Novos ensaios
sobre o entendimento humano, livro escrito como um diálogo entre um defensor do
empirismo lockeano (Filateto) e um defensor do racionalismo leibniziano
(Teófilo). Lá, Teófilo fala sobre a noção de infinitude: “O verdadeiro
infinito, a rigor, não se encontra senão no absoluto,
que é anterior a qualquer composição, e não é formado pela adição das partes”
(Leibniz, 1996, p. 139). No Todo verdadeiro, para Leibniz, antecede a tudo,
visto que não é composto por partes finitas, mas pelo infinito absoluto. Também
isso está intimamente relacionado ao seu princípio lógico da Identidade dos
Indiscerníveis que afirma que se todo A=A, ambos tem os mesmos predicados, as
mesmas essências, a igualdade daquilo que é idêntico a si mesmo. Quando falamos
em voz alta: ‘Eu já ouvi este ditado’, a predicação está em função de um
sujeito específico, a saber: Eu. Temos a sensação que essa partícula nominal é
um Uno, Eu sou Eu, algo semelhante à linguagem da Unidade no poema de
Parmênides sobre a natureza. Apesar de sabermos que temos pensamentos díspares,
somos feitos de partes corporais que se ligam entre si não por unidade mas por
continuidade, pensamento tipicamente cartesiano, e mesmo que somos finitos, nos
referimos a um Eu que somos, a uma entidade subjetiva única e inimitável.
Aristóteles, na sua obra, elabora uma teoria que é um dos pontos chave da sua filosofia: o Ato e a Potência, onde
tudo aquilo que É, é em Ato e tudo aquilo que pode ser, pode ser em Potência.
Mas tudo o que uma substância pode ser em Potência já está contido como
informação no seu ser em ato, e Aristóteles chama de enteléquia quando toda a Potência de uma substancia é convertida em
ato, no seu É. O conceito de Ser não é necessariamente semelhante ao conceito
de Eu. Mas, pela linguagem, estamos acostumados a dizer ‘Eu sou’. Novamente
Leibniz (1996, p. 139) diz que “o infinito verdadeiro não é uma modificação, é
o absoluto; ao contrário, desde que se modifique, limita-se, ou forma o
finito.” É como se, pela linguagem, disséssemos que somos um infinito absoluto
que não se modifica: ‘sou eu mesmo e não coisa outra alguma.’ Quando dizemos
‘Eu’ não dizemos, como intenção de significado, ‘sou feito de partes e de ossos
e de sentimentos e de crenças’, mas dizemos, com e pela linguagem, sem que
necessariamente estejamos pensando ou sentindo isso, ‘Sou eu em absoluto e nada
nem mais ninguém’. O monoteísmo tem como base de crença alguns desses aspectos
linguísticos, dentre eles os presentes nas Confissões de Santo Agostinho que,
após seus longos e extenuantes desencontros com a dualidade do maniqueísmo, com
os filósofos céticos, com seus prazeres da carne, encontrou no platonismo e na
interpretação católica da bíblia uma unidade: Deus não é substancia mas o único
Ser, sumamente bom e eterno, que tudo criou e que tudo sabe. Descartes,
Aristóteles, Leibniz, Agostinho operaram suas noções de unidade pela
metafísica, mas fazendo uso da linguagem. Se a linguagem for o veículo do
pensamento, como diz Wittgenstein, toda noção de unidade filosófica ou mesmo
lógica é uma questão de linguagem. Mas e as noções de Eu que não vem de
questões metafísicas e suprassensíveis? Freud, já referido acima, disse que a
construção primitiva do Eu na primeira infância, chamada de narcisismo primário,
parte da noção do sujeito como unidade infinita e absoluta do existir (Eu
ideal). Somente a castração, com sua lei do limite, vai reconfigurar a noção de
Eu pela descoberta castradora da noção de Outro, ocorrendo posteriormente um
retorno da libido (energia psíquica) ao Eu no narcisismo secundário, sob o
prisma da multiplicidade dos outros que também existem, criando o seu Ideal de
Eu, de perfeição: “assim, o que o ser humano projeta diante de si como seu
ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância, durante a qual ele
mesmo era seu próprio ideal" (Freud, 2004, p. 112). Ainda que a
metapsicologia freudiana tenha matizes metafísicos, ela se baseia em
observações diretas, ainda que indutivas, da própria prática psicanalítica.
Tanto os psicóticos, como os neuróticos como os perversos negam essa lei da
castração de diversas formas, mas é sempre por uma falta de simbolização dos
traços mnêmicos cheios de afeto, dos conflitos que essa não simbolização causa,
que surgem os sintomas, os lapsos de memória, os atos falhos, os sonhos, o
chiste, o recalcamento. Falta de simbolização em Freud é falta de organização e
ordenação de significado para uma experiência que nos invade e não sabemos o
que é, qual seu idioma, o que significa essa "intrusão hostil oriunda do
mundo externo" (Freud, 2004, p.114). Piaget argumenta que a criança nasce
com reflexos inatos e uma intuição natural para o movimento, chamado de período
sensório-motor, onde ainda não há a presença da linguagem. O sujeito descobre o
mundo pelo movimento, pelo corpo, pelo reflexo, pela tensão e relaxamento
muscular, pelos sentidos que descobrem novidades imediatas. Mas é devido a
aquisição da função simbólica, numa próxima fase do desenvolvimento infantil,
que a criança adquire a linguagem e
“É assim que, graças a
linguagem, a criança é capaz de evocar situações não atuais, e de se libertar
das fronteiras do espaço próximo e do presente, isto é, dos limites do campo
perceptivo; isto por que a inteligência senso-motora estava quase inteiramente confinada
ao interior de tais fronteiras.” (Piaget, 2019, p. 77)
Passa a
simbolizar o mundo. Mas a linguagem não é o único motor de mudanças dessa nova
fase do desenvolvimento. Para Piaget (2019, p. 77) outros aspectos representam
mudanças significativas no processo de desenvolvimento dessa fase como o
“começo da representação” e o “início da esquematização representativa
(conceitos, etc.)”. Piaget é kantiano, em parte, tanto ao fazer uso do termo
representação e construção de conceitos, como ao afirmar que a intuição
espacial já está em nós a priori. Kant falava dessa intuição como estrutura
universal do entendimento, como parte do seu sistema filosófico que visava a
crítica de uma suposta razão pura que tudo pode conhecer, mas na verdade apenas
representa o fenômeno (não a coisa-em-si), aquilo que estrutura a partir de
juízos sintéticos a priori, ou seja, pelas categorias a priori do entendimento.
Piaget fala a partir da lente da genética, da psicologia, da biologia, da
motricidade, bem como da lógica do seu tempo, diferente de um sistema
filosófico propriamente dito. Portanto a intuição espacial está ligada ao
movimento reflexo biológico da criança e sua tendência inata ao movimento. As
representações e conceituações estão relacionadas ao desenvolvimento de uma
inteligência nova, diferente da senso-motora, que permite a criança organizar
suas percepções e suas noções espaciais em construtos não imediatos, visto que
na fase senso-motora toda percepção do mundo ficava no campo do imediato
fugidio por não ser esquematizada, representada, organizada. G. Simmel, um dos
pais da sociologia clássica, nos diz num dos ensaios chamado O conceito de
tragédia na cultura que
“O ser humano não se
acomoda a realidade natural do mundo, sem questioná-la, como o faz o animal,
mas sim descola-se dela, contrapõe-se a ela, exigindo, brigando, violando e
sendo violado – e com esse primeiro grande dualismo, assoma o processo entre
sujeito e objeto.” (Simmel, 2020, p. 257)

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