A linguagem é escurecimento?
Rimbaud teve seus pares de desconstrução: poetas
que reinventaram o fazer poético. Rilke e Trakl são dois exemplos preclaros,
pontos de transição do século do idealismo alemão para o século das duas
grandes guerras. A Alemanha está repleta de poetas de contornos metafísicos e
imagéticos e ambos tem esses dois elementos em suas obras, mas também uma
peculiaridade que os torna poetas tão contrastantes entre si: a grande
diferença com que fazem uso do idioma alemão. Mas ainda assim poetas que
iluminaram a selva oscura do
modernismo em poesia.
Trakl foi um poeta expressionista, com uma
linguagem grotesca, original e potente, em que as imagens seguem-se umas às
outras como num quadro de Van Gogh, aparentemente desconexas, recortadas no
todo, mas contendo cada uma a semântica geral da obra: Dor, desespero, cores e
morte. Segundo Cavalcanti, tradutora de Trakl e quem assina o posfácio da
antologia De Profundis, em 1914
“Era o
começo do fim: Trakl havia sido transferido para um hospital militar em
Cracóvia, Polônia, depois da terrível batalha de Grodek. Ali vira-se forçado a
cuidar de pessoas que lhe imploravam a morte, tomadas pelas dores físicas
imputadas pela guerra (...) Na retirada de Grodek o poeta já tentara suicídio,
motivo pelo qual foi minuciosamente revistado ao chegar em Cracóvia, onde
deveria ficar em observação. Não se sabe como conseguiu a superdose de cocaína
que o levou à segunda tentativa e à morte subsequente, em 3 de novembro de
1914. Georg Trakl tinha 27 anos” (Cavalcanti, 2010, p. 95)
Trakl usava
constantemente entorpecentes, teve uma relação estranha e de aspectos
incestuosos com sua irmã, desde muito novo foi exposto aos horrores da guerra e
seus poemas giram em torno de toda essa dor que o desespera. Escreve, em 1914,
um poema sobre a guerra de Grodek:
“À tarde soam as florestas outonais
De armas mortíferas, as planícies douradas
E lagos azuis, por cima o sol
Mais sombrio rola; a noite envolve
Guerreiros em agonia, o lamento selvagem
De suas bocas dilaceradas.
Mas silenciosas reúnem-se no fundo dos prados
Nuvens vermelhas, onde habita um deus irado,
O sangue vertido, frieza lunar;
Todos os caminhos desembocam em negra putrefação.
Sob ramos dourados da noite e das estrelas
Oscila a sombra da irmã pelo mudo bosque.
Para saudar os espíritos dos heróis, as cabeças que sangram;
E baixinho soam nos juncos as flautas escuras do outono.
Oh, tão orgulhoso luto! Altares de bronze!
Hoje uma dor violenta alimenta a chama ardente do espírito:
Os netos que ainda não nasceram.
(Trakl, 2014, p. 79)
Escurecimento!
Os séculos são idades de sangue, as guerras imperam, a linguagem está vibrando, se fragmentando,
adquirindo novos contornos. Segundo Cavalcanti (2014, p. 104) “As palavras,
aparentemente simples, vem associadas a recursos estilísticos como a
sinestesia, filha da metáfora, sem a qual não existiria o texto trakliano”. Pouco antes da morte de Trakl, um fenômeno
inusitado ocorreu:
“Mesmo
desconhecido, pouco antes da eclosão da guerra o poeta austríaco chegou a
receber a doação de vinte mil coroas que lhe possibilitariam uma vida sem
preocupações financeiras. Sobre o seus poemas, disse o mecenas: ‘Não os
entendo; mas seu tom me satisfaz. Trata-se do tom de um verdadeiro gênio’. Era
Ludwig Wittgenstein, que atendeu ao apelo do poeta mas chegou em Cracóvia três
dias depois do enterro dele. O dinheiro oferecido por Wittgenstein (a mesma
quantia também fora concedida a Rainer Maria Rilke) poderia tirá-lo do embaraço,
frequente àquela época, de empréstimos que fazia a amigos.” (Cavalcanti, 2014,
p 95 – 96)
Wittgenstein
também admirava Rilke, apesar de desgostar de algumas fases de sua produção. A
poesia do também poeta austríaco teve várias faces: a fase cunho religioso e
contemplativo, a fase dos poemas mais marmóreos e de imagens amplas, fase
em que fora influenciado pelas esculturas de Rodin e os quadros de Cézanne,
dois artistas que admirava e estudava profundamente as obras, até a fase
metafísica e inefável de suas elegias compostas no castelo de Duíno, na Itália.
O Poema A Pantera é um dos mais notáveis da sua obra:
(No Jardin des Plantes, Paris)
De
tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
(Rilke, 2013, p. 121)
Escurecimento! Que grande
impulso é esse que se arrefece? De tanto olhar as grades, há então só grades?
Que imagem é essa que morre no coração? A experiência de estar imerso em um mar
angustiante, denso, fechado gera a ilusão de que no mundo há apenas angústia e
grades. Quando olhamos novamente, quando o fecho da pupila se abre em silencio
a imagem aterradora reaparece e os impulsos se arrefecem na a imobilidade
contraditória da tensa paz dos músculos, lá se instila. Então os impulsos, os
desejos de liberdade acabam por morrer no coração, interiorizados e cheios de
angústia. Significar essa angústia, dar a ela um sentido, transformá-la pela linguagem, é Sísifo empurrando sua rocha.

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