A linguagem é iluminação?
Nas suas Iluminations, recortes poéticos e
surrealistas, Rimbaud usa a linguagem como um projeto: Faze-la florescer e
implodir, cores e nomes, verbos e sonhos, iluminuras. No poema Rastros esse
projeto é tão visível que se assemelha a subitamente abrir os olhos mergulhados
no escuro na luz do sol da manhã
“À direita a aurora de
verão desperta as folhas e os vapores e os rumores deste canto do parque, e as
encostas à esquerda retém em sua sombra violeta os mil rastros rápidos da
trilha úmida. Desfile de fantasias. De fato: carros carregados de animais de
madeira dourada, de mastros e telas de cores berrantes, no grande galope de
vinte cavalos de circo malhados, e os meninos, e os homens sobre seus mais
incríveis animais; vinte veículos, corcundas, pavoneados e floridos como as
carroças antigas ou dos contos de fada, cheias de crianças enfeitadas para uma
pastoral suburbana. Até caixões sob seus dosséis noturnos ostentando penachos
de ébano desfilando ao trote de grandes éguas azuis e negras.” (Rimbaud, 2014,
p. 55)
Iluminações! Em recortes do poema
Liquidação, onde tudo se vende, tudo é explosão de multiplicidade
“As Vozes restauradas; o
despertar fraterno de todas as energias corais e orquestrais e suas aplicações
instantâneas; oportunidade única de liberar nossos sentidos!
(...)
“Vende-se anarquia para
as massas; satisfação irreprimível para amadores superiores; morte atroz para
os fiéis e os amantes!
(...)
Impulso insensato e
infinito aos esplendores invisíveis, as delícias insensíveis, – e seus segredos
enlouquecedores para cada vício – e sua alegria assustadora para a multidão.”
(Rimbaud, 2014, p. 57)
Iluminações! O mar, o poema Marinha, com
sua conotação erótica
“As carroças de prata e cobre –
As proas de aço e prata –
Espancam espumas, –
Singram ramos de sarça.
As correntezas do pântano,
E os rastros imensos do refluxo
Fluem em círculos rumo a leste,
Rumo aos pilares da floresta, –
Rumo aos troncos do cais,
Cujo ângulo é ferido por turbilhões de luz.
(Rimbaud, 2014, p. 77)
Iluminações! As flores de Rimbaud, poema em
aliterações de cores e formas, dão o contraste necessário para o que estaria
por vir, para a identidade perdida do sujeito pós-moderno, líquido, onde seus
valores, dogmas, estruturas, crença, estavam postos em xeque, destruídos e
reconstruídos:
“De um degrau de ouro, –
entre cordões de seda, gazes grises, veludos verdes e discos de cristal que
escurecem como bronze sob o sol, – vejo a digital se abrir num tapete de
filigranas de prata, de olhos e cabelos.
Peças de ouro amarelo
semeadas sobre a ágata, pilares de acaju sustentando uma cúpula de esmeraldas,
buquês de branco cetim e hastes sutis de rubis rodeiam a rosa d’água.
Como um deus de enormes
olhos azuis e formas de neve, o céu e o mar atraem aos terraços de mármore a
turba de jovens e fortes rosas.” (Rimbaud, 2014, p. 73)
Iluminações! O
poema é Festa de Inverno:
“A cascata canta atrás
das cabanas da ópera cômica. Girândolas prolongam, nos pomares e nas alamedas
vizinhas do Meandro, – os verdes e vermelhos do crepúsculo. Ninfas de Horácio
com penteados do Primeiro Império, – Cirandas Siberianas, Chinesas de Boucher”
(Rimbaud, 2014, p. 79)
Arthur Rimbaud compôs praticamente toda a sua obra, ou seja, poemas em verso, prosa poética, cartas, em sua adolescência-juventude, entre seus 16 e 21 anos, entre os anos de 1870 e 1875. Sua história com a família, os desafetos com sua mãe, suas constantes fugas a Paris. O famoso caso de amor e ódio com o poeta Paul Verlaine se deu numa dessas fugas: voltou para a Paris a convite de Verlaine, que ficou fascinado com alguns trabalhos que Rimbaud lhe enviou, o hospedando em sua casa. Passou a conviver diariamente com o jovem poeta, levá-lo aos círculos de literatura e arte parisienses e, sem se dar conta, desenvolveu uma paixão tão arrebatadora que abandonou sua mulher e filhos para viajar diversas vezes com seu magnético e fascinante amante. O término da relação de Rimbaud com Verlaine foi trágica: dois tiros, um deles acertando o pulso do jovem e libertino poeta. A comoção geral que Rimbaud causava na sociedade parisiense, em Verlaine, nos ciclos de poetas e artistas, em todos os lugares que passava, era sempre a mesma: uma espécie de torpor, violência e fascinação.
Seu flanar pelas ruas de Paris como um vagabundo libertino, sua beleza celestial e dolorosa, seus devaneios com as palavras, estão retratados em seus poemas. Parou de escrever ainda jovem e viajou freneticamente pelo mundo, até morrer de um câncer no joelho aos 37 anos. O seu soneto Voyelles, composto por assonâncias e aliterações em cada verso, hemistíquios sonantes de alexandrinos perfeitos reverberando cada Cor a partir de cada Vogal que se evidenciam no primeiro verso e conduzem os caminhos da sonoridade do poema. Aqui na tradução de Ivo Barroso:
“A negro, E branco,
I rubro, U verde, O azul: vogais,
Um dia hei de dizer vossas fontes latentes:
A, negro e veludoso enxame de esplendentes
Moscas a varejar em torno aos chavascais,
Golfos de sombra; E, alvor de tendas tumescentes,
Lanças de gelo altivo, arfar de umbelas reais;
I, púrpuras, cuspir de sangue, arcos labiais
Sorrindo em fúria ou nos transportes penitentes;
U, ciclos, vibrações dos mares verdes, montes
Semeados de animais pastando, paz das frontes
Rugosas de buscar alquímicos refolhos;
O, supremo Clarim de estridores profundos,
Silêncios a esperar pelos Anjos e os Mundos:
— O, o Ômega, clarão violáceo de Seus Olhos!”
(Rimbaud, 1994, p. 171).
A linguagem pode iluminar então, segundo Rimbaud, a
partir de determinada maneira, pelo entorpecimento de todos os sentidos. Mas a
Ciência também levanta essa égide que o importante poeta francês, arauto do
novo século, mas de outra maneira: a ciência demonstra, pela hipótese, pela
indução-dedução, pela prova, pelo controle, pela replicação, pelo teste, sua
iluminação.
Copérnico, um dos pais da Astronomia moderna,
afirmou a partir de uma série de cálculos que a Terra não era o centro do
Universo mas o Sol, e que a primeira girava em torno deste último, numa órbita
constante. O Heliocentrismo nascia, em meados do século XVI, mas com bastante
parcimônia, visto que a morte rondava quem questionasse os dogmas da igreja
católica no auge da Inquisição. É G. Galilei quem vai provar a teoria
copernicana do Heliocentrismo, mas nega suas descobertas frente à forte coerção
exercida pela igreja. Há um trecho na carta que Galilei escreve em 1615 à
Senhora Cristina de Lorena, Grã-duquesa Mãe de Toscana, que diz o seguinte:
“Porque o
meu propósito não tende a outra coisa senão a que – se nestas considerações
afastadas da minha profissão, entre os erros que puderem estar nelas contidos,
se acha alguma coisa apta para levar outros a alguma advertência útil para a
Santa Igreja no que concerne à decisão a respeito do sistema copernicano – ela
seja conservada e feito dela o uso que aprouver aos superiores; se não, que o
meu escrito seja mesmo rasgado e queimado, pois não pretendo tirar dele nenhum
fruto que não seja piedoso e católico” (Galilei, 2009, p. 57)
A ciência tinha pouco a ver com a igreja, senão
apenas num sentido: na dominação da última pela primeira. O medo de morrer é
natural, Galilei preferiu viver. Nem mesmo com Newton e suas demostrações da
gravitação dos planetas ao redor do Sol surtiu efeito. Apenas no século XIX o
papa Gregório XVI redimiu os textos da censura e aceitou o Heliocentrismo. Mas
as coisas nem sempre foram assim: Hipócrates, o pai da medicina, descendente da
figura mítica Asclépio, o que trazia os mortos à vida e era filho de Apolo, o
Deus do Sol e também da Medicina, foi o primeiro a estudar sistematicamente a etiologia
das enfermidades humanas, antes abordadas a partir de discursos mágicos, míticos
e xamanistas. Com Hipócrates os doentes passam a ter uma causa empírica para
suas doenças, a relação íntima entre fatores endógenos e exógenos, o exame
minucioso das partes do corpo, sua teoria dos humores, a noção de saúde como
equilíbrio entre o corpo e seu ambiente, as anotações aforísticas como
documentos científicos das descobertas, toda uma escola formada para o estudo
científico das patologias.
A ciência tem origens remotas, tem conflitos
constantes e ainda contemporâneos, se propõe a iluminar a realidade. Mas a
filosofia reclama também seu posto de lux
que desvela não só a realidade, mas seus horrores. O Iluminismo foi um
movimento filosófico que floresceu na Europa do século XVII e, junto com o
Renascimento e a Contrarreforma, representou a libertação do Homem dos antigos
moldes do pensamento da Idade das trevas. A linguagem do sujeito iluminista era
uma apologia da Razão, da liberdade do homem, da igualdade, dos saberes para
todos, da dissolução do antigo regime. Voltaire (2017, p. 35), no seu Tratado
sobre a Tolerância diz que: “O direito da intolerância é, pois, absurdo e
bárbaro. É o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres só atacam
para comer, e nós nos exterminamos por conta de parágrafos.”, fundamentando
esse argumento na tese de que
“O direito
natural é aquele que a natureza indica a todos os homens. (...) O direito
humano não pode ser fundado, em nenhum caso, senão sobre esse direito de
natureza. O grande princípio, o princípio universal de ambos, é, em toda a
Terra, o seguinte: ‘não faz para o outro aquilo que não gostarias que fizessem
a ti’” (Voltaire, 2017, p. 35)

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