Duas apologias à loucura

                                                         A Wilson Vieira

“Primeiro, vós bem vedes com que providência a natureza, esta mãe produtora do gênero humano, dispôs que em coisa alguma faltasse o condimento da loucura”

Erasmo de Rotterdam

A loucura enquanto fenômeno está longe do que os gregos chamavam de αλέθεια (alétheia), o desvelamento do ser enquanto contemplação da verdade, que se assemelha ao estado indispensável de normatividade e adequação que sistematicamente atribuímos ao sujeito de maneira geral como sustentáculo para o conhecer, o compreender, o conviver e mesmo o estar em harmonia com o mundo. Ora, sob essa perspectiva a loucura nada mais é, como foi posta desde a antiguidade mais remota, que uma aberração, e suas implicações éticas ultrapassam a imanência purificadora da razão. Mas há um ramo relativamente recente na história do conhecimento, surgido em meados do século XVIII, que está a ela intimamente relacionado: a estética.

Platão, um grande apologista da dialética como racionalidade que apara as arestas da opinião do senso comum, descreve no seu Fedro a loucura com alguma face positiva, a saber, o delírio divino que experimentam os artistas no parto de suas obras. A μανία (manía) ou loucura é então não somente um negativo, guarda uma profunda relação com a gênese criativa humana num sentido de síntese estética da vida, sentido esse que a psicanálise vai chamar, na aurora do século da psicologia enquanto saber, de Sublimação. No mesmo diálogo Platão qualifica a loucura, por outro lado, de fato como um negativo em que a discursividade analítica, também chamada de razão ou λόγος (lógos), está sujeita a um pélago desconcertante e destruidor que leva a ruir qualquer relação com a racionalidade, mas a loucura criativa é antes de tudo divina. Não é por acaso que Ovídio, nas Metamorfoses, elabora e recria a história de tudo a partir da mitologia greco-romana, onde as obras da loucura estão presentes de maneira frequente, como no mito de Pigmalião: aqui Ovídio conta a história de um escultor que decide criar uma estátua de mulher mais pura e bela que as volúveis imagens femininas da realidade. Põe nela tanto de si que acaba tomado de paixão, dando ao mármore esculpido joias, roupas e também um nome: Galateia. Em um dos rituais de adoração à Vênus, Pigmalião pede à deusa para encontrar uma mulher tão maravilhosa quanto a que criou. A estátua então muda de um mármore frio para a maciez da carne humana, vive, e se casa com Pigmalião. A loucura é portanto também Έρως (Eros) ou o Cupido dos romanos, também não por acaso o arqueiro filho de Vênus, a deusa do amor.

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