A linguagem é movimento?

“Aos jardins abandonados
ela aproava
como uma pomba”

G. Ungaretti


Seguindo com o Fédon (2015), Platão afirma que a alma é o princípio que anima a matéria, gera nela a vida e que, ao completar sua viagem pelo mundo das formas, sempre retorna ao corpo. Nesse diálogo o filósofo questiona: se não há nada de plenamente igual percebido pela sensibilidade, de onde vem então o conceito de igualdade? Para Platão ele vem da própria alma, que viaja, se move por si, contempla as Formas e volta ao corpo, esquecida delas, mas as possuindo em si, para dialeticamente serem paridas. 

A palavra grega Kínesis significa movimento e a alma é o princípio do movimento da vida. O que dizer com isso? Os gregos não foram os primeiros a fazer uso da linguagem, mas elegeram um Deus para ela: Hermes, o deus mensageiro, o deus dos rebanhos, o deus dos ladrões, o deus da linguagem, que se move rapidamente pelo mundo, prega peças, cria ilusões, gera conflitos. É daí que vem a palavra Hermenêutica, área da filosofia que pensa e teoriza sobre a interpretação. Thoth é o deus egípcio que cria a linguagem, que aparece não a toa no Fedro do jovem Platão.  Nas metamorfoses de Ovídio (2017) o poeta canta o mito do sábio Tirrésias, homem que, ao ser picado por uma serpente, virou mulher e tempos depois, ao reencontrar a mesma serpente, decidiu ser novamente picado para retornar à forma antiga de homem. Júpiter e Juno discutiam se o homem ou a mulher sentiam mais prazer, para Júpiter era a mulher, para Juno o homem. Decidiram perguntar ao sábio Tirrésias qual dos dois experimentava prazer mais intenso, por saberem que já havia experimentado o prazer de ambos os sexos: Tirrésias disse que era a mulher. Encolerizada e ultrajada, Juno castiga o sábio com a escuridão eterna, a cegueira. Zeus, apiedado do pobre sábio, o concedeu o dom de adivinhar o futuro. Pela linguagem, Tirrésias vaticina o destino de quem com ele vem conversar e pedir por suas previsões, movimenta os homens, mas não o seu destino. A linguagem em Tirrésias é como um mármore frio. Homero canta a guerra de Tróia ou Ílion contra os Gregos liderados por Agamêmnon, irmão do rei Menelau de Lacedemônia, que teve sua bela esposa Helena raptada pelo jovem Páris, irmão de Heitor e filho de Príamo, rei de Tróia, o que iniciou o conflito. Canta a ira do Peleu Aquiles, maior dos guerreiros, que incessantemente clama por Heitor para matá-lo como vingança pela morte de seu amado amigo Pátroclo: Heitor aceita honrosamente a exortação e morre. Canta as viagens de Odisseu de volta para a pátria Ítaca e os mais diversos e rutilantes eventos que com ele ocorrem até sua chegada.  Hesíodo (2019) canta a seu irmão Perses que quem nem pensa por si mesmo nem ouve os conselhos do outro é atingido no seu ânimo, é um homem inútil. Canta o mito de Pandora, uma mulher criada, a pedido de Zeus, por Hefesto, o deus do fogo e dos metais, e Atena, a deusa da sabedoria e da justiça, para ser enviada como primeira mulher a conviver entre os homens e casar com Epimeteu, irmão de Prometeu, como punição a este último por dar o fogo divino aos mortais, tornando-os superiores. Apesar dos reiterados conselhos do seu irmão para que não se casasse com aquela bela mulher, Epimeteu cede e com Pandora vem uma caixa que não poderia ser aberta de maneira alguma. Pandora abre: na caixa continha todos os males do mundo, todos libertados pela curiosidade e, logo que fechada pelo remorso de Pandora, sobra nela apenas a Esperança, a que permanece. 

Por que recorro à mitologia como análoga à linguagem como movimento? Porque é lá que a linguagem começou a adquirir matizes mais amplos, explicações cosmogônicas, fundação de religiões, base da moral, da educação, da ética, da política. É possível conceber a linguagem como a reconstrução do movimento da própria História, como Heródoto narrando nas suas Histórias o imenso poder e as conquistas do império Persa na região da Grécia, do Egito, da Fenícia, da Babilônia, até a retomada dos Gregos ou Tucícides narrando a história da Guerra do Peloponeso, importante conflito entre as pólis gregas Esparta, centro do belicismo, e Atenas, centro da cultura e da política, pelo domínio da Grécia antiga, no século V a.C., que durou 27 anos. A guerra foi deflagrada principalmente por conta dos benefícios que a liga de Delos, criada para proteger a Grécia dos Persas, passou a direcionar quase que exclusivamente a Atenas. Esparta não aceitou essa empresa, iniciou o conflito, Atenas com forças pelo mar, Esparta com forças pela terra. Atenas vence e é assinada a Paz de Nícias.

Mas há ainda outro tipo de apropriação da história e da mitologia como movimento da existência, portanto também da linguagem. Nietzsche, pensador e poeta prussiano do século XIX procura romper com a metafísica clássica, com a ciência positiva, com a religião cristã, com o que ele chamava de instinto ascético, negação da vida, niilismo. Para isso ele opera, na primeira fase do seu pensamento uma investigação sobre o nascimento da tragédia e na terceira fase do seu pensamento uma genealogia da moral. Na primeira obra há o contraste entre a luminosidade ordenadora do Apolíneo e o excesso caótico do dionisíaco como forças contrárias que configuram o fazer artístico, elaborando uma crítica sobre os contornos decadência da vida sob o jugo do escopo Apolíneo, desde Sócrates e, na tragédia, pelo teatro de Eurípides que deixava de operar com o seminal conflito dos deuses no palco pelas peças de Ésquilo e com a amplificação do sentido do trágico em Sófocles para introduzir elementos da filosofia socrático-platônica da razão em suas peças. Na segunda obra há a investigação genealógica do valor por trás dos valores, de que não há nenhum a priori fixo para a vida, apenas movimento de alteridade e forças em conflito que se consumam pelo devir e produzem perspectivas, isto, na vida, expresso como Vontade de Potência. Ao longo da história o homem foi se tornando gregário, interiorizando seus excessos, pelo utilitarismo provisório da causa comum do coletivo, gerando a má-consciência: os excessos que tendiam para fora, se voltam para dentro e se consumam ao se interiorizar. O gregarismo primitivo, ao longo do tempo, se converteu em civilização, sociedade, corpo político, enquanto a má-consciência gerou, pela mnemotécnica, a ampliação da memória e da consciência para a moral e o status quo: a impressão a ferro e fogo de valores supostamente absolutos e eternos sobre o Belo, o Bom, a Eudaimonia, a Virtude, gerando o ressentimento: o homem que calcula, questiona sobre a existência, vagueia pelo éter insondável da metafísica, elabora um além-mundo, situa a vida fora dela, num Paraíso, numa Verdade, num Deus, na Imobilidade, a tal ponto que adoece de si. No aforismo 30 do Anticristo, ele diz que

O instinto de ódio contra a realidade: consequência de uma capacidade extrema de sofrer e excitar-se, a qual, em geral, não quer mais ser ‘tocada’, pois ela sente todo o toque muito profundamente.
O instinto de ódio exclusão de toda aversão, de toda inimizade, de todos os limites e distâncias no sentimento: consequência de uma capacidade extrema de sofrer e excitar-se, a qual sente toda relutância, todo ter-de-relutar, como um insuportável desprazer (i. é como algo prejudicial, como algo que o instinto de conservação de si dissuade), e a qual conhece a bem-aventurança (o prazer) apenas em não mais opor resistência, a ninguém mais, nem ao mal-estar, nem ao mal – o amor como a única, como a última possibilidade de vida.” (Nietzsche, 2020, p. 38-39, grifos do autor)

Ou seja, o grande desprazer gerado pela contradição inerente da vida leva o décadent a evitar todo tipo de adversidade, pela sua excitabilidade exacerbada em via de qualquer contradição e ao movimento dessas contradições, buscando um caminho único de completa paralisação do desconhecido, do doloroso, do visceral, do antinômico. Ora, para Nietzsche a vida é movimento e contradição, sofrimento e êxtase, não teleológica, vontade de mais vontade e via nos trágicos gregos, em Shakespeare e Stendhal, em Goethe e Homero, na arte, a saída para o niilismo como vida que se consuma pelo excesso, pelo transbordamento do páthos, pelo movimento que cria e recria a vida sem um fim último, mas aberto pelas perspectivas.:



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