Como é a linguagem?
“Pois o verdadeiro e o
falso são atributos da linguagem, e não das coisas”
Hobbes, Leviatã
É a linguagem uma relação
direta entre mundo, signo e pensamento ou uma ferramenta intersubjetiva da
pragmática? Na chamada virada linguística, onde a filosofia analítica surge
como alternativa à metafísica continental, Wittgenstein, um dos filósofos que
mais influenciou o movimento analítico na filosofia, afirma as duas coisas: a
primeira na sua única obra publicada em vida, o Tractatus Lógico-Philosophicus,
e a segunda na sua principal obra póstuma, as Investigações Filosóficas. Filósofos como Frege, Russel, Carnap consolidaram
a virada linguística, onde a linguagem passa a ser o centro das estruturações
em lógica. Mas foi Frege quem realmente deu azo para o surgimento da filosofia
analítica: No primeiro parágrafo do seu artigo “Sobre o Sentido e a Referência”,
Frege (1962, p. 61) se questiona sobre a Igualdade (ou Identidade) analítica ou
sintética, se “é ela uma relação? Uma relação entre objetos ou entre nomes ou
sinais de objetos?” e afirma em seguida que na sua obra Begriffsschrift (traduzida aqui como Conceitografia) assumiu “a última
alternativa”, ou seja, a da Igualdade como relações de signos. No mesmo artigo
ele afirma que a linguagem natural é cheia de imperfeições para ser usada como
uma linguagem lógica e aritmética pura, já que “frequentemente as linguagens
naturais não satisfazem esta exigência” (Frege, 1962, p. 63). Ele divide essas
relações entre signo (o elemento da linguagem), Sentido (o conteúdo semântico
que o signo expressa) e Referência (O objeto que o sentido alcança, se refere).
Mesmo a matemática não está livre destas imperfeições, como ele ilustra nos
sentidos e referencias obtidos por relações de símbolos num triângulo
equilátero:
As retas “A”, “B” e “C” que partem de vértices diferentes e chegam nos respectivos pontos médios dos lados opostos de cada vértice tem uma referência em comum: o ponto de intersecção (encontro) das três retas no meio do triângulo. Mas como cada reta parte de um vértice distinto, chega a um ponto médio distinto, elas tem sentidos diferentes. Portanto há sentidos diferentes para uma mesma referência. Ainda que demonstre uma verdade, não permite uma relação de linguagem pura e una entre sentido e referência. Na sequência de Fibonacci ocorre algo semelhante, visto que ela é um continuum numérico em que o número a que nos referimos é a soma dos dois anteriores, mas a função apenas opera corretamente se o sentido da primeira e da segunda posições na sequência fizerem referência do número 1:
·
Fn = F(n - 1) + F(n – 2), onde F1 e F2 = 1.
“n" representa a posição
do número na sequência (a primeira posição começa depois do 0), gerando o
contínuo:
·
0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89...
Aqui temos dois sentidos
diferentes F1 e F2 para a mesma referência, o número 1. Há um exemplo
semelhante a este que Frege propõe no seus escritos: para a referência objetiva
do planeta Vênus, são comumente usadas as expressões estrela da tarde de
estrela da manhã. Frege (1962, p. 62) diz que “A referência de ‘Estrela da Tarde’
e ‘Estrela da Manhã’ seria a mesma”, o Planeta Vênus, “mas não o sentido.”
Visto que as duas expressões são diferentes, tem conteúdos diferentes, apesar
de se referirem ao mesmo objeto. Para Frege isso mostra um impasse para um
trabalho lógico/aritmético perfeito e a necessidade de uma nova linguagem
somente voltada para a lógica e a aritmética. Mas o que são problemas lógicos
para Frege, para nós que usamos cotidianamente a linguagem natural, são
questões diversas, visto que podemos construir diversas formas de relações de
sentidos e referências, potencializando a complexidade da linguagem como um
todo, com modos diversos de funcionamento, para além do logicismo.
É ela então comunicação, uma
estrutura de signos, uma ciência possível? Os termos signo, sentido e
referência em Frege tem paralelos, mas também diferenças, com as elaborações
teóricas da linguística, inaugurada por Saussure, como na dicotomia
significante/significado. Tanto em Frege como em Saussure há os elementos
objetivos da linguagem (signo ou significante) e os elementos de uso da
linguagem (sentido ou significado). Mas para a linguística há a necessidade de
uma elaboração sistemática do que é o seu objeto de estudo e esse não é a
lógica pura e sim a própria linguagem. Saussure já havia, nos seus cursos
ministrados na Suíça, elaborado suas famosas dicotomias para um estudo
científico da linguagem, como língua/fala, diacronia/sincronia,
significante/significado, etc. O objetifica de fato a linguagem e a transforma
numa estrutura de signos a ser cientificamente estudada.
Jakobson, um dos mais
importantes cientistas da linguagem e herdeiro de Saussure, propõe importantes
teorias no campo da comunicação. No seu ensaio “A procura da essência da
linguagem” ele afirma que
“O símbolo
opera, antes de tudo, por contiguidade instituída, apreendida entre
significante e significado. Essa conexão ‘consiste no fato de que constitui uma
regra’ e não depende da presença nem da ausência de nenhuma similitude ou
contiguidade de fato. O intérprete de um símbolo, qualquer que seja, deve
obrigatoriamente conhecer essa regra convencional, e ‘é só e exclusivamente por
causa dessa regra’ que o signo será efetivamente interpretado” (Jakobson, 2010,
p. 128)
Uma assertiva muito semelhante
ao Wittgenstein (1994) das investigações filosóficas que afirma o caráter de
ferramenta dos elementos linguísticos, onde em cada jogo de linguagem com o
escopo da comunicação (porque na filosofia da linguagem do segundo Wittgenstein
os elementos linguísticos tem funções incalculáveis e em permanente formação, a
depender do jogo em questão) é necessário que os interlocutores tenham
previamente posse e uso dessas ou daquelas ferramentas da linguagem para que a
comunicação ocorra, usos construídos intersubjetivamente. Jakobson, no ensaio
“A linguagem comum dos linguistas e dos antropólogos”, disserta sobre algo
semelhante quando trata novamente da comunicação:
“Um
processo de comunicação normal opera com um codificador e um decodificador. O
decodificador recebe a mensagem. Ele conhece o código. A mensagem é nova para
ele e, por via do código, ele a interpreta. (...) É a partir do código que o
receptor compreende a mensagem” (Jakobson, 2010, p. 27)
Jakobson elaborou as funções básicas da linguagem na comunicação, a partir de um contexto, de um emissor, de um receptor, de um canal, de um código e de uma mensagem, elementos inerentes a toda comunicabilidade. Pelo paradigma da ciência da linguagem as funções são, a saber:
* Função Referencial: o objeto ou contexto da mensagem são o escopo e o foco da comunicação. Mensagens com informações objetivas e, até certo ponto, neutras, como em revistas científicas ou de natureza jornalística.
* Função emotiva: o escopo dessa função está na subjetividade do emissor. A mensagem revela um caráter pessoal, de opinião, subjetivo.
* Função conativa: o escopo dessa função está na persuasão, a mensagem tem o caráter sedução, intencionalmente busca uma atitude de adesão, no receptor, do que aquela mensagem transmite, como um comportamento, uma crença, etc.
* Função fática: o escopo dessa função está no canal da comunicação, para que ele se estabeleça, para que a ligação comunicativa entre emissor e receptor se estruture.
* Função metalinguística: o escopo dessa função está sobre a própria linguagem. A linguagem que referencia a de si mesma, fala de si mesma.
* Função poética: o escopo dessa função é estético, estilístico. Imagens e ritmo, sonoridade e metáforas, comunicar a partir da estética do texto.
Voltando para o campo da
filosofia da linguagem, o pragmatismo linguístico reitera que a noção do uso da
linguagem como comunicação a partir do acesso direto de um sentimento ou uma
representação ou pensamentos como um tópos,
um lugar que pulsa, gera o engano de que no candelabro do sentido muitas luzes
estão acessas com o propósito de luminar e representar a experiência mesma do
sentimento ou do pensamento ou figurar eles próprios. Contudo apenas expressa
sentidos e usos que fazemos enquanto prática da própria linguagem. Isso não alude
à suposição de que esses sentimentos ou pensamentos não existam, apenas reitera
que a linguagem quer mais linguagem e como ela não representa ou ilustra a
experiência privada de quem fala àquele que ouve mas apenas significados e
ferramentas da linguagem que estão sob posse prévia tanto do emissor como do
receptor, para que haja a concretização do fenômeno da comunicação. Portanto
não gerar, naquele que ouve ou lê, uma suposta figuração ou um acesso aos
pensamentos ou aos sentimentos pela fala, pelo texto, etc. e sim um contexto
onde quem fala e quem ouve, quem escreve e quem lê faz usos de jogos de
linguagem. Essa é uma das teses de Wittgenstein no segundo momento do seu
pensamento, o referido pragmatismo linguístico, visto que para ele, como
expressa no aforismo 371 das suas Investigações Filosóficas, “A essência se
expressa na gramática” (Wittgenstein, 1994, p. 158), para ele não há um fio
condutor essencial que universalize a linguagem, o que gera um confronto direto
com a ciência da linguagem. Para Wittgenstein é possível, com os jogos de
linguagem, as mudanças de práxis dos
elementos linguísticos em seus mais variados usos, visto que ela está sempre em
construção e desconstrução, o que possibilita, ao longo da história, as
diferentes maneiras de significar e gerar sentido no contexto dos povos gregos
clássicos, do medievo, do Renascimento e do Iluminismo, dos Românticos alemães
e ingleses, da virada linguística do século XX.


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