Ovídio
canta, no livro II das Metamorfoses, o desespero de Faetonte em saber se era
seu pai mesmo Febo, o Sol, após ser descreditado por Épafo, nascido do sêmen de
Júpiter e que tinha o mesmo humor volúvel.
Faetonte recebe de sua mãe Clímene, filha de Oceano, a resposta: esta
afirmava ser Febo, o Sol, mas seu filho precisava de uma prova irrefutável.
Percorre os terrenos da Índia até a morada de Febo e, chegando no palácio
inefável e brilhante do Sol, talhado de pedras preciosas e bronze e mármore o
Sol ladeado pelas Horas, o Dia, o Mês, o Ano, o Verão, o Inverno, o Outono, a
Primavera.
“Ao mesmo tempo que por escarpado caminho
o filho
aí chegou e entrou na morada do pai, de quem duvida
dirige de imediato seus passos para junto
do rosto paterno, mas detém-se afastado, pois, de mais perto
não suportaria a luz.” (Ovídio, 2017, p. 103)
Faetonte
recebe a verdade: É filho do Sol. Febo, seu pai, lhe concede um desejo.
Faetonte escolhe o único que Febo detestaria: controlar sua carruagem solar
pelos vastos campos do éter. Irritado, termina por ceder aos pedidos
insistentes do filho. Faetonte incinera os campos, os montes, seca os rios,
derrete os píncaros congelados, queima o sangue, sobe alto demais, desce baixo
demais, fende a Mãe terra que grita e descobre o rosto, retrai o Oceano,
dificulta ainda mais o trabalho de Atlas ao segurar o mundo sobre as costas.
Júpiter, o grande Pai de todos, mata Faetonte com seus raios. O que lhe resta
de memória é seu belo epitáfio:
“Aqui jaz Faetonte, auriga do carro
paterno.
Se não o dominou, tombou, todavia, com grande ousadia.”
(Ovídio, 2017, p. 123)
Ovído também narra, no livro I,
a angústia dos sobreviventes do grande dilúvio causado por Netuno, por ordem de
Júpiter, para conter e punir a empresa dos homens que odiavam-se uns aos outros
e só destruíam a si mesmos em guerra. Deucalião e Pirra, os únicos
sobreviventes do dilúvio por serem muito devotos aos Deuses, tiveram seu barco
ao alcance do monte Parnaso, tendo toda a terra e tudo o que estava sobre ela
sido coberto por água. Encontraram num templo que ficava no topo do monte a
deusa dos juramentos Temis, que lhes vaticinou, para salvar a raça humana:
“Saí
do templo, cobri a cabeça, soltai vossas vestes
lançai para trás de vós os ossos da vossa magna mãe”
(Ovídio, 2017, p. 71)
Ficam indecisos, que crime, que
enigma, a linguagem é confusa. Deucalião compreende: A mãe é a Terra, suas
pedras são como seus ossos. Atiram para trás de si as pedras da Terra e nelas
remodelações e mutações ocorrem com o contato com a umidade e o calor, adquirem
forma humana, e com os outros elementos as outras formas todas de vida se
refazem, pois que “a discordante harmonia fomenta a gestação” (Ovídio, 2017, p;
75) A linguagem poética ovidiana está intimamente relacionada com a tradição da
poesia oral Homérica e Hesiódica, fonte direta, entre outras, de grande parte
dos mitos encontrados na obra do poeta romano. Mas é uma linguagem também do
sujeito freudiano que busca a perfeição, neurótica, que é tão ideal que cega,
mal podendo ser contemplada. O sujeito esquece de si e busca a lei paterna, os
carros fulgurantes do sentimento da falta, conflituoso, simboliza seus afetos, se
autodestrói. A Teogonia, poema épico de Hesíodo que conta a história do
nascimento dos Deuses a partir de uma perspectiva cosmogônica, onde um banho de
linguagem mítico se desvela:
“Sim
bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre [...]” (Hesíodo, 1991,
p. 109)
Primeiro é o Caos, desestrutura e ser jogado ao mundo sem suporte. Mas a grande Mãe de amplo seio é de todos sede irresvalável sempre. Não há como compreender o mundo sem o alimento da grande Mãe. A mãe é a terra, é a progenitora, a casa da infância, a primeira árvore escalada, o amor dos irmãos, o cheiro das árvores do jardim da casa, o gosto do café torrado, a subida do morro da favela, a própria linguagem. A linguagem é sede de todos, sempre, sede de significado, sede de compreensão, textos que segmentam vidas, orações que suplantam a falta, salmos, poemas, currículos, o choro de cansaço e raiva, os jornais, conversas nas praias do silencio, a matemática, a mãe linguagem.
Camões fala, de forma velada, de uma sede que se mata a si mesma, em um soneto
escrito nos fins do século XVI ou início do XVII, o Soneto de Despedida. No
primeiro quarteto a descrença no existir e sua temporalidade mascaram uma tentativa
de desvelamento da sede, porém a partir do segundo quarteto e nos últimos dois
tercetos essa sede aparece voraz, como se por sentir sede assim a vida passa a
fazer sentido, já que não é valoroso esquecer a sede, o páthos, com a morte
“De
vós me aparto, ó vida, em tal mudança,
Sinto vivo da morte o sentimento,
Não sei pera que é ter contentamento,
Se mais há de perder quem mais alcança.
Mas dou-vos esta firme segurança,
que posto que me mate meu tormento
Pelas águas do eterno esquecimento
Segura passará minha lembrança.
Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
Que com qualquer cous’outra se contentem,
Antes vos esqueçais, que vos esqueçam.
Antes nesta lembrança se atormentem,
Que com esquecimento desmereçam
A glória que em sofrer tal pena sentem.”
(Camões, 2018, p. 67)

Comentários
Postar um comentário