A linguagem?

Se escrevo excertos como:

I

“O silencio fala como as cores. É possível compreender silenciosamente um céu azul ou amarelo-esverdeado pelo poente ou a ametista das asas caídas de um anjo que desce ao inferno. A beleza das cores é estética? O anjo mau que desce as profundezas do fogo de rubi líquido dos pecados é belo como mito? Quando sonhamos normalmente apenas vemos, nenhum som, nenhuma dor, apenas o silencio das cores e do mistério.”

II

“Para os gregos o conceito de Eudaimonia é, pela etimologia, “Eu” (o bem, o bom) e “Daemon” é a grafia usada para um deus ou gênio que nos habita e nos preenche. Eudaimonia é estar tomado ou preenchido pela felicidade plena. Aristóteles dizia na Ética a Nicomaco que a moderação, o meio termo entre o excesso e a falta, é a via concreta para a felicidade e para o bem. O aparecimento da moderação ocorre também na República de Platão quando o filósofo fala do seu conceito de Justiça como cada parte fazendo aquilo que lhe cabe, usando o Mito dos metais da alma, misturados pela mãe Terra as almas dos homens: ouro, prata, bronze e ferro. Todos filhos de uma mesma Mãe que neles mesclou suas naturais propensões e ofícios em escala de valor, se referindo ao Estado, ao Rei-Filósofo, aos guardadores da paz/protetores na guerra e aos trabalhadores. E a Justiça da alma, análoga a do Estado, é cada parte da alma, tripartida entre os apetites, a coragem da honra e a razão, fazer o que lhe cabe naturalmente, gerando equilíbrio, moderação, felicidade, até o ponto que o contato com a psyché (alma) com o corpo, naturalmente propenso a destruição das coisas que estão em devir, permitir.”

III

“Um homem caminha pela calçada e vê, num poste sem luz, entre outros com suas luzes abertas como bocas de Apolo, duas flores mortas. “A flores estariam ali”, ele pensa, “por que a estrutura está abandonada”. O bairro está na periferia da cidade, cada luz que emite seu torpor é um milagre cotidiano.”

IV

“O Pêndulo de Schopenhauer: o chamado filósofo do pessimismo, disse que a vida é como um pêndulo que oscila entre a dor e o tédio, com uma breve ilusão de felicidade ou prazer entre os dois extremos. Cita em seus textos filosóficos ensinamentos de saberes religiosos orientais, trazendo para a metafísica um novo parâmetro: algo para além do platonismo (ainda que Platão seja citado com frequência em suas obras), acredita que a essência de tudo, que está por trás do Véu de Maia, é uma Vontade metafísica cega irrefreável da qual nosso organismo, como funcionamos, é dela uma manifestação direta e nosso corpo material, bem como todo fenômeno, uma manifestação objetivada, estruturada, dessa Vontade. Há melhores ideias em Schopenhauer, dizia Popper, que em qualquer outro filósofo.’

V

Calímaco é o poeta dos Epigramas e do que não mais sobrou como registro, como Safo, poeta do amor feminino em sua amplitude. Píndaro agoniza a sintaxe com suas inversões de períodos, revira o léxico com seus neologismos e aglutinações, mitiga a semântica com ruínas do sentido. Píndaro declamava suas odes triunfais aos vitoriosos olímpicos. Píndaro diz que é preciso não aspirar a imortalidade mas explorar toda o escopo do praticável, do possível aqui. Ouvir o verbo impávido dos Sofistas, a textura de um pilar do Partenon, Sócrates proferindo sua apologia. Hélade! Quem sou eu?

VI

O amor não mais como objeto perdido. Eros sustenta seu arco nas esquinas dos edifícios de luxo, nos escombros dos prédios seculares, nos teatros esquecidos e nas vísceras abertas das ruas, na reminiscentia, nos pilares invisíveis do cotidiano. Anna Karienina, como uma pluma de sonho, se atira entre as rodas de um trem por amor e dúvida. Goethe escreve Os sofrimentos do jovem Werther para mitigar a si mesmo. O amor não mais como objeto perdido.

VII

Nietzsche dizia que a Verdade é um conjunto de metáforas e antropomorfismos, que servem antes como vontade de verdade que é uma forma de vontade de poder, dominação, controle. Mas também a Moral, sustentada pelo absolutismo da Verdade, é um produto da interiorização do homem, da Mnemotécnica, a saber, repressão das forças que tendiam para a expansão e para consumação que se voltam para dentro e ampliam a consciência, a noção de Eu, o animal que calcula, o Cogito, e ao longo da história imprime na memória dos povos a culpa e o ressentimento. Para Nietzsche Deus está na gramática, não no além-mundo da metafísica socrático-platônica. A linguagem nietzschiana é poética, aforística, ácida, cômica, filosófica, contraditória, simbólica e, como ele preferia dizer, afirmadora da vida em sua complexidade, devir, movimento e caos de forças. A própria moral, o instinto ascético, a ciência, a religião, a filosofia, a existência como produto de forças caóticas que criam e recriam perspectivas.     

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O que é isso, a linguagem?

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