Pulsa a linguagem?

Minha intenção ao redigir este texto não é seguir um rigor histórico ou filológico do desenvolvimento das noções da linguagem ou mesmo suas origens, mas passear pelos campos do signos como dentes de leão que carregam a semente de Thoth. O romantismo alemão foi um fecundo período de transformações na linguagem, com uma nova concepção de sujeito. O projeto/termo Sturm und drang (tempestade e ímpeto) cunhado por Goethe e Schiller, que não mais queriam o primado do homem que raciocina, a antropologia obsessiva da razão, mas as florescências das paixões, os êxtases e premências da trieb (impulso), como escopo de suas produções e da estética geral do movimento. O poeta romântico alemão F. Holderlin, no seu único romance, escrito a maneira epistolar, nos apresenta o protagonista Hipérion, um eremita na Grécia, homem antinômico e conflitiva, tautológico e contemplativo: semântico. Relata numa carta cheia de tensão e lirismo certas impressões a seu amigo Belarmino sobre seu Retorno a Esmirna:

“Minha Esmirna sedenta vestia-se das cores de meu entusiasmo [...] Como, então, se alegrava meu coração! Com que credulidade interpretava esses adoráveis hieróglifos! Esse tempo passou porém com a mesma rapidez que as bétulas na primavera” (Holderlin, 2012, p. 50)

Os Hieróglifos, metáfora que o escritor romântico usa para designar as diferentes cores e sons que tinha que interpretar, decodificar e ao mesmo tempo fruir: linguagem. Ainda na mesma carta Holderlin (2012, p. 52) fala que, “como um lírio balançando no ar silencioso, assim vibrou, nesses seus elementos, nos ardentes sonhos com ela, meu ser”. Hipérion sente, pulsa, quer usar a linguagem como representação ou imagem da experiência em si, como ferramenta intersubjetiva de significado.

O poeta dramático grego Sófocles canta em Antígona, filha de Édipo, a dor de uma mulher que precisa enterrar o irmão morto por traição, mas para isso deve confrontar o tirano Creonte e as leis do Estado que proíbem ao traidor o ritual fúnebre e um lugar sob a terra do lugar que traiu. Antígona, num paroxismo de desespero (depois de perder a mãe e o pai, de perder o irmão, da irmã Ismene não ter a mesma coragem que a sua e de toda a sua linhagem ser destruída pela profecia edipiana), prefere as leis divinas que, segundo ela, são eternas e superiores aos do homem e enterra o amado irmão Polinices, confrontando Creonte:

Creonte

“Agora, dize rápida e concisamente:
sabias que um édito proibia aquilo?”

Antígona

“Sabia. Como ignoraria? Era notório.”

Creonte

“E te atreveste a desobedecer às leis?”

Antígona

“Mas Zeus não foi o arauto delas para mim,
nem essas leis são as ditadas entre os homens
pela Justiça, companheira de morada
dos deuses infernais; e não me pareceu
que tuas determinações tivessem força
para impor aos mortais até a obrigação
de transgredir normas divinas, não escritas,
inevitáveis; não é de hoje, não é de ontem,
é desde os tempos mais remotos que elas vigem
sem que ninguém possa dizer quando surgiram.
E não seria por temer homem algum,
nem o mais arrogante, que me arriscaria
a ser punida pelos deuses por violá-las.
Eu já sabia que teria de morrer
(e como não?) antes até de o proclamares,
mas, se me leva a morte prematuramente,
digo que para mim só há vantagem nisso.
Assim, cercada de infortúnios como vivo,
a morte não seria então uma vantagem?
Por isso, prever o destino que me espera
é uma dor sem importância. Se tivesse
de consentir em que ao cadáver de um dos filhos
de minha mãe fosse negada a sepultura,
então eu sofreria, mas não sofro agora.
Se te pareço hoje insensata por agir
dessa maneira, é como se eu fosse acusada
de insensatez pelo maior dos insensatos.”
(Sófocles, 1990, p. 219)

A peça de Sófocles é antes de tudo uma tragédia política. Mas a linguagem alcança prodígios semânticos e trágicos que só os dramaturgos gregos e alguns outros poucos como Shakespeare e Racine conseguiram construir. Goethe escreveu o maior poema dramático sobre o famoso mito do Doutor Fausto, de origem alemã, oral e muito antigo: um médico que, pela cobiça do saber e do poder, faz um pacto com o diabo, Mefistófeles, em troca de sua alma. Tanto nesta obra, chamada Fausto, escrita em dois tomos ao longo de toda a vida de Goethe, da juventude à velhice, quanto na obra Os sofrimentos do jovem Werther, a linguagem literária passa do classicismo de Weimar ao Romantismo de fato. Em Werther há passagens em que o protagonista agoniza por ser humano e estar, por isto, estar sempre em conflito, em passagens como: “Por que aquilo que faz a felicidade do homem tem que se tornar a fonte de sua desventura?” (Goethe, 2009, p. 72). Werther sepulta sua própria vida, mata-se e, ao mesmo tempo, vive como um caos de forças contraditórias:

“O que é o homem, esse semideus enaltecido! Não lhe faltam as forças justamente no momento em que mais precisam delas? E, voando de alegria ou sofrendo profundamente, nos dois casos, ele não se detém, recobrando a consciência embotada e fria, justamente quando ansiava perder-se na plenitude do infinito?” (Goethe, 2009, p. 131)

A voltagem poética da linguagem do primeiro Goethe, do seu primeiro romance em que um Werther sufoca por um amor impossível e por não se encaixar na crescente sociedade capitalista e industrial de sua época ecoa por toda a obra do grande poeta alemão. No Fausto, primeiro tomo, o doutor exclama:

Fausto

“Não penso em alegrias, já to disse.
Entrego-me ao delírio, ao mais cruciante gozo,
Ao fértil dissabor como ao ódio amoroso.
Meu peito, da ânsia do saber curado,
A dor nenhuma fugirá do mundo,
E o que toda a humanidade é doado,
Quero gozar no próprio Eu, a fundo,
Com a alma lhe colher o vil e o mais perfeito,
Juntar-lhe a dor e o bem-estar no peito,
E, destarte, ao sei Ser ampliar meu próprio Ser,
E, com ela, afinal, também eu perecer.”
(Goethe, 2009, p. 383)

A linguagem pulsa para além do homem antropocêntrico racional que se coloca a si mesmo no centro do universo, elege a Razão como instancia geradora de liberdade, moral, paz, conhecimento, mas deixa de lado os mais profundos e conflituosos questionamentos irracionais do homem, seus devaneios e figurações caóticas, reduz a estética a uma teoria sistemática do belo, relega os impulsos a um baú fechado. No modernismo e no pós-modernismo a linguagem literária colapsa e se refaz como discurso fragmentário do movimento de destruição e reconstrução dos significados.  Escritores como Kafka, Woolf, Faulkner, Mann, Joyce, Bernhard, Mansfield, Proust, Beckett redefiniram os padrões da linguagem, fragmentando-a, fragmentando a si mesmos, incorporando o seu Zeitgeist, termo que Hegel (que foi u último filósofo a criar um sistema universal fechado) usou para definir o espírito de cada época. Os escritores usam a linguagem como ferramenta de deflagração, exortação ao absurdo e ao sem sentido, bem como para a necessidade de construção de sentidos. Kafka, na Carta ao Pai diz que

“Por outro lado, também aqui você deve, da mesma maneira que eu, acreditar na sua ausência de culpa, mas precisa explicá-la pelo seu modo de ser e pelas relações históricas, e não meramente pelas circunstâncias externas;” (Kafka, 1985, p. 49)

É preciso construir sentidos, mesmo para a culpa, para a dor, também para a linguagem, a partir de uma degeneração dos antigos valores, crenças e imperativos morais, um estado longo de Anomia, para usar um termo do sociólogo francês Durkheim, estado esse em que a sociedade se encontrava numa desordem estrutural de suas partes funcionais, gerando caos. Nos seus Diários, numa passagem de 26 de Dezembro de 1910 diz: “Meu interior se solta (por enquanto apenas superficialmente) e está pronto a deixar emergir coisas mais profundas” (Kafka, 2014, p. 126). Numa passagem do dia seguinte diz como um sujeito próximo de um colapso que “Minha força já não basta para mais uma única frase.” (Kafka, 2014, p. 126). Mas a sensação do sujeito pós-moderno é mais que angústia, é desamparo:

“Essa sensação de falsidade que tenho ao escrever poderia ser representada pela imagem de alguém que, diante de dois buracos no chão, espera por uma aparição que só pode sair do buraco direito. Porém, enquanto precisamente este se mantém sob uma tampa pouco visível, do esquerdo se levanta uma aparição atrás da outra, busca atrair o olhar para si e por fim o consegue sem esforço devido a seu tamanho crescente, que, por fim, cobre inclusive a abertura correta, por mais que se procure impedi-lo.” (Kafka, 2014, p. 270)

O sujeito pós-moderno mede o pulso, olha a bula como a bíblia, vive a nova Torre de Babel, o novo dilúvio que desconstrói os significados gravados nas montanhas do saber científico, nos prados das crenças imutáveis, nas florestas das cores e formas conhecidas.

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