Sentimos a linguagem?

Píndaro foi o maior poeta lírico da Grécia antiga. Segundo Rocha (2018, p. 11), o tradutor da obra pindárica completa para o português, Píndaro nasceu provavelmente em Cinoscéfalas, cidade a menos de um quilometro a muralha de Tebas e fez parte do cânone dos nove maiores poetas da poesia mélica (chamada de mélica porque os poemas eram compostos para ser cantados), sendo deles o maior. Escreveu Epinícios: poemas que celebravam os campeões das várias modalidades dos jogos Olímpicos em diferentes localidades: as chamadas Odes Triunfais, compostas provavelmente entre os séculos VI a V A.C. Sua linguagem e estilo eram extremamente peculiares, estética e semanticamente. Segundo Rocha, nos textos iniciais da obra completa, sobre o estilo do poeta:

“Podemos dizer que suas canções estavam distantes da linguagem falada. Era mais uma linguagem ‘literária’, artificial, com predominância do dialeto dórico, apesar de ele ser de Tebas, cidade onde se falava o dialeto eólico, ou mais especificamente o beócio [...] Elas eram certamente difíceis para o público que as apreciava.” (Rocha, 2018, p. 37)

Por que peculiares? Porque “Píndaro é o mestre dos paralelismos e das estruturas quiásticas, ou seja, do intercalamento de palavras” (Rocha, 2018, p. 37), o que deixa uma excentricidade também no campo sintático e, devido “a invenção ou reutilização de palavras compostas” (Rocha, 2018, p. 49), também no campo léxico. Esta lexicalidade inventiva é perceptível nos versos doze a quatorze da Olímpica 1: “[...]Hierão/ que o legítimo cetro possui na multifrúctea/ Sicília [...]” (Píndaro, 2018, p. 77) e também nos versos um a quatro da Pítica 6:

“Escutai, pois, de fato, da escurolhos Afrodite
                o campo ou das Cárites
rearamos, ao umbigo da vastibramante
terra, ao templo dirigindo-nos.”

Píndaro certamente foi um dos maiores poetas da antiguidade. Há, porém, um poeta grego-otomano do século XX, considerado um dos fundadores do modernismo na poesia: o alexandrino K. Kaváfis. Seus poemas versavam sobre histórias recontadas de personalidades históricas antigas, cenas eróticas e líricas pessoais, poemas sobre o cotidiano do homem moderno. A linguagem em Kaváfis é simples, direta e bela. É o poeta da sexualidade e da Antiguidade poetizada, uma espécie de Heródoto ou Tucídides reencarnado que não se satisfaz apenas em narrar a História, mas narra a sua própria história pelas histórias dos outros, pelos seus pequenos cristais de poesia. No poema Desejos ele diz:

“Como belos corpos de mortos que não envelheceram
e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,
com rosas nas cabeças, jasmins nos pés –
assim se lhes assemelham os desejos que passaram
sem se realizar, sem que nenhum
alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa”
(Kaváfis, 2006, p. 71)

Rousseau (2020, p. 289), no primeiro parágrafo de seu Ensaio sobre a origem das línguas, afirma que “A palavra distingue os homens dos outros animais; a linguagem distingue as nações entre si” e que “O uso e a necessidade ensinam a cada um a língua de seu país. Mas o que faz com que essa língua pertença a seu país e não a outro?”. Rousseau fala da importância da necessidade mas também do uso, da prática, da língua como fonte de aprendizado e mesmo de distinção na construção das diferentes linguagens. Para Rousseau (2020, p. 289) “a fala é a primeira instituição social, e deve sua forma unicamente a causas naturais”. São as paixões as verdadeiras forças motrizes, para o filósofo genebrino, da origem e da estruturação da linguagem:

“No instante em que o homem foi reconhecido por outro como um ser sensível, pensante e semelhante a ele, o desejo ou a necessidade de comunicar-lhe seus sentimentos e pensamentos o levou a buscar meios para fazê-lo. Esses meios só podem ser extraídos dos sentidos, únicos instrumentos que um homem tem para atuar sobre outro. Eis, portanto, a instituição de signos sensíveis para expressar o pensamento. Os inventores da linguagem não fizeram esse raciocínio, mas o instinto lhes sugeriu sua consequência” (Rousseau, 2020. P. 289)

A proposta de Rousseau, apesar de fundada num aspecto naturalista e mesmo evolucionista, com matizes do futuro darwinismo, acredita que a linguagem surge não como um raciocínio construído pela comunidade em prol de um utilitarismo, mas como uma necessidade, uma intencionalidade aguda que leva ao pragmatismo, à construção e uso de signos primitivos que surgem das necessidades prementes das paixões e dos instintos de comunicação. Portanto a linguagem teria uma espécie de essência original no seu surgimento: a saber, os instintos de comunicação dos pensamentos e paixões entre semelhantes, fundados no substrato naturalista dos instrumentos que disporíamos na época: os sentidos que seriam afetados, afinal “os meios gerais de que dispomos para atuar sobre os sentidos de outrem são dois, a saber, o movimento e a voz” (Rousseau, 2020, p. 289). Ora, então como o movimento e a voz serviram de instrumentos para a construção da linguagem? Para Rousseau (2020, p. 293) “as necessidades ditaram os primeiros gestos e as paixões arrancaram as primeiras vozes.”

A linguagem também se apresenta em suas formas mais complexas, explorando a estética, o estilo, a poíesis, com belezas de ordem e desordem, divinas e caóticas. Aristóteles na Poética fala de dois fenômenos tipicamente simbólicos, portanto linguísticos, presentes na sua teoria da arte dramática: A Mimesis (Imitação) e da Kátharsis (purgação, mitigação)

“De fato, no ser humano a propensão à imitação (Mimesis) é instintiva desde a infância, e nisso ele se distingue de todos os outros animais; ele é o mais imitativo de todos, e é através da imitação que desenvolve seus primeiros conhecimentos.” (Aristóteles, 2011, p. 42)

Inclusive através da imitação também experimentamos prazer. Aristóteles usa como argumento a visão de imagens de animais ferozes e cadáveres que seriam geralmente repugnantes, mas se usadas como forma de conhecimento geram prazer, visto que “o conhecimento apresenta regozijo não apenas aos filósofos, como igualmente a todas as demais pessoas (...)” (Aristóteles, 2011, p. 42). Portanto é pela imitação, segundo Aristóteles, que aprendemos boa parte de como conhecer as coisas, observando o método, as práticas, as deduções e aplicando-o nós mesmos. Quando passa a conceituar a tragédia, segundo o filósofo um tipo de imitação artística, um dos elementos mais interessantes da linguagem corporal interpretativa dos atores e da organização do roteiro é a Kátharsis:

“Tragédia, assim, é a imitação de uma ação séria, completa, que possui certa extensão, numa linguagem tornada agradável mediante cada uma de suas formas em suas partes, empregando-se não a narração, mas a interpretação teatral na qual [os atores], fazendo experimentar compaixão e o medo, visão à purgação (Katharsin) desses sentimentos” (Aristóteles, 2011, p. 47)

A simbologia da arte dramática é plena de tipos de linguagem que nos concernem cotidianamente. Por ser uma representação artística de elementos das relações humanas, seus medos, comicidades, banalidades, conflitos, reverberam na plateia essa linguagem que pulsa e que fala de cada um que as presencia enquanto arte de representar a vida.

Sentimos a linguagem? Ora, Salmo 39:12 diz “Ouve minha oração, Senhor; /Escuta o meu grito de socorro;” A oração é uma ferramenta de comunicação, uma conversa direta com Deus, apesar do temor e do respeito, “pois sou a ti um estrangeiro, /como foram meus antepassados.” O sujeito que ora sente a linguagem evaporar de si para a Providencia, contém em si um significado de piedade, súplica, humildade, socorro e, ao mesmo tempo, amplidão. A oração é principalmente a fala da imperfeição angustiada e perdida, estrangeira, à fonte de tudo que É. Deus é bom e justo, perfeito e criador e quem ora sente a linguagem como conexão com o Amor divino. O Genesis traz a linguagem como portadora de Verdade, em João, capítulo 1: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Em contraposição ao Caos da Teogonia grega, onde o princípio de tudo era uma desintegração de qualquer verdade ou sentido. Os povos sentem as linguagens de seus profetas e apóstolos, de seus Aedos e oradores: a linguagem é a pedra de toque da cultura.

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