A casa da linguagem?
“A linguagem fala.”
Heidegger, A, caminho da
linguagem
A casa da linguagem somos nós ou nós habitamos a linguagem? Kant dizia que temos estruturas ou intuições a priori como o espaço, o tempo, a causalidade, que nos permitem organizar a matéria bruta da experiência, esta a posteriori, dos sentidos. Ao dizer isso o filósofo operou a virada copernicana na filosofia, onde o conhecimento não nos era dado passivamente, mas o próprio sujeito o construía. Entretanto, a estruturação das informações que recebemos possibilita ao mesmo tempo que limita o conhecimento, visto que conhecemos apenas o fenômeno, aquilo que aparece para nós, não a Coisa em si mesma, ou seja, sua natureza última, sua essência, sendo ela metafísica, para além da nossa capacidade de conhecer. Portanto não são nem os juízos analíticos a priori dos racionalistas nem os juízos sintéticos a posteriori dos empiristas que contém verdade sobre a realidade. Kant chama o conhecer de juízos sintéticos a priori, pois operam um acréscimo a posteriori no conhecimento geral fenomênico e ao mesmo tempo tem validade universal a priori: estruturamos a realidade como fenômeno e com ela fazemos ciência. Kant dá o exemplo da matemática como uma desses juízos:
7 + 5 = 12
Inicialmente nos parece apenas
um juízo analítico, onde o predicado já está contido no sujeito, apenas uma
relações de ideias que analisam suas partes e nada acrescentam. Mas se
observarmos com mais atenção é possível concluir o seguinte: o número 5 e o 7,
independentes, não contém em si o 12. É somente após a operação de adição (a
posteriori) que o 12 aparece. Portanto essa operação não é analítica, por não
se tratar de uma mera análise de conhecimentos já existentes, como na
geometria. Mas ao mesmo tempo é universal, a priori, visto que em sempre 7 adicionado
de 5 será 12. Trata-se de um juízo sintético a priori, por gerar conhecimento
novo a partir de um acréscimo a posteriori e ter valor universal a priori. Aqui
se situam o espaço e o tempo, que não adquirimos pela experiência, visto que
não há dados sensoriais para nenhum dos dois, mas é neles, como intuição nossa,
que os eventos da a posteriori acontecem, que as coisas se relacionam pela
causalidade. Kant faz uso da linguagem matemática para provar que a razão pura
é limitada, conhecemos somente o que e como podemos conhecer.
Uma das funções da linguagem,
tanto no âmbito da filosofia da linguagem quanto da ciência linguística, é a
comunicação. No livro “Os gêneros do discurso”, o filósofo e crítico literário
dialético russo M. Bákhtin defende o primado do diálogo como práxis da linguagem. Nele aparecem as
questões clássicas do objetivismo e do subjetivismo, da estrutura discursiva e
do enunciado:
“As palavras da língua não são de
ninguém, mas ao mesmo tempo nós as ouvimos apenas em certos enunciados individuais,
nós os lemos em determinadas obras individuais, e aí as palavras já não tem
expressão apenas típica, porém expressão individual externada com maior ou
menor nitidez (em função do gênero), determinada pelo contexto singularmente
individual do enunciado.” (Bákhtin, 2016, p. 53)
Os gêneros do discurso, as
estruturas que fundamentam e dão lastro para que os enunciados apareçam existem
na linguagem de maneira geral, seja na gramática, nos dicionários, nos manuais
de linguística, em cada discurso especializado ou leigo, mas o enunciado é
produzido necessariamente por matizes subjetivos, a partir do uso das
ferramentas que as estruturas discursivas dispõem. Assim como existem
enunciados padronizados, ainda que subjetivos, influenciados diretamente pela rede
de valores e crenças e leis e elementos culturais de cada povo e de cada
falante:
“Na comunicação discursiva, existem tipos
padronizados e muito difundidos de enunciados valorativos, isto é, de gêneros
valorativos de discurso que traduzem elogio, aprovação, extase, estimulo,
insulto (...) As palavras que, em determinadas condições da vida
político-social adquirem um peso específico, tornam-se enunciados exclamativos
específicos (...) (Bákhtin, 2016, p. 49)
A linguagem está viva, é
produzida e produz sentidos ou, como diz Bákhtin (2016, p. 56) “o elemento
expressivo é uma peculiaridade constitutiva do enunciado”, enunciado enquanto
expressão, expressividade, modos de operar com a linguagem
“O sistema da língua é dotado das formas
necessárias (isto é, dos meios linguísticos, para emitir a expressão, mas a
própria língua e suas unidades significativas – as palavras e orações – carecem
de expressão pela própria natureza, são neutras.” (Bákhtin, 2016, p. 56)
São neutras porque não tem
expressividade por si, mas precisam de um agente enunciativo, precisam de uma práxis que vai definir qual significado
esse ou aquele elemento da linguagem vai ter, em que contexto, em que campo
cultural, sob que influência ideológica, sendo portanto, o sistema da língua,
os gêneros do discurso, permanentemente construídos e reconstruídos pelas
expressões enunciativas, pelos significados construídos dialeticamente. B.
Skinner, psicólogo e cientista do comportamento, fala que o comportamento
verbal é, como todo comportamento, filogenético (de aspectos inatos),
ontogenéticos (a história de vida) e culturais, mostrando como a linguagem é
dinâmica em seus vários setores de operação e que podem gerar contingencias de
complexidades muito ricas. Em Skinner temos o esquema do comportamento operante
onde o sujeito opera/modifica o seu ambiente e é por ele modificado:
·
Sa –> R: C
Onde cada estímulo ambiental “Sa”
vai gerar oportunidade para que um determinado comportamento “R” aconteça, sem
que o determine, e esse mesmo comportamento vai gerar uma consequência “C” que
selecionará a frequência, o aparecimento ou mesmo a extinção de determinados
comportamentos. O comportamento verbal vai depender de um tipo específico de
estímulo ambiental:
·
Sd – R: Sr
Aqui o estímulo ambiental é
discriminativo “Sd”, visto que ele gera mais possibilidades
ambientais de determinado comportamento “R” ocorrer, tendo como consequência um
estimulo reforçador “Sr” (que aumenta a frequência do
comportamento). O comportamento verbal é dinâmico, depende de contingências, ou
seja, relações entre comportamentos e suas consequências, seus reforçadores ou
punições, seus controles aversivos, seus estímulos intermitentes ou seus
contracontroles , ou seja, sua relação entre o sujeito e o seu ambiente, sendo
o ambiente tudo aquilo que dá oportunidade para um comportamento ocorrer, fora
de nós ou “debaixo da nossa pele”, expressão típica do monismo skinneriano.
Alguns obras de linguistas,
entre elas o seminal Cours de
linguistique générale (CLG) de
Ferdinand de Saussure, filósofo e professor suíço, tiraram as operações
acadêmicas e técnicas com a linguagem do ostracismo da comparação filológica. O
CLG, como obra póstuma atribuída a Saussure, é uma organização e composição
sistemática do pensamento do genebrino a partir dos cadernos de anotações de
alunos dos seus cursos e de ideias esparsas em manuscritos originais. O
estruturalismo da diferença entre língua e fala, entre diacronia e sincronia,
entre significado e significante, abriram portas para toda a ciência da
linguagem do século XX, com nomes como Benveniste, Jakobson, Barthes, Lacan,
Peirce, Hjelmslev, Chomsky. A morada da linguagem é, na linguística, a ciência.
Há um texto manuscrito de Saussure recentemente descoberto chamado “Sobre a
essência dupla da linguagem”, que muitos afirmam uma semelhança metodológica e
conceitual e um diálogo direto com o ClG, muitos afirmam o contrário, que o
recente manuscrito mostraria um suposto “Saussure real”. No texto a seguinte
passagem mostra que, para Saussure, há uma dualidade intrínseca e conflitiva na
essência da linguagem:
“O dualismo reside na dualidade do
fenômeno vocal COMO TAL e do fenômeno vocal COMO SIGNO – Do fato físico
(objetivo) e do fato físico-mental (subjetivo), de maneira alguma do fato
“físico” do som por oposição ao fato “mental” da significação” (Saussure, 2002,
p. 24)
Portanto, apesar de Saussure
olhar por uma lente inaugural este objeto a ser estudado e ainda não muito
claro, reitera que a dualidade está no fenômeno vocal como fato físico/objetivo
e do fenômeno vocal como enunciação subjetiva dotada de significado. É clara a
influência do positivismo e do logicismo que imperavam na época como métodos de
clareza dedutiva e obtenção de verdades. O que Saussure pretende é fundar uma
ciência da linguagem, que no decorrer do século se ramificou para diversos
campos do saber, como a semiótica e a semiologia, o gerativismo, a linguística,
os estudos semânticos, sintáticos, funcionais, léxicos, fonéticos.
Já Frege e Russel, pela lente da matemática e da lógica puras, construíram saberes outros sobre o fenômeno da linguagem. Frege, como referido acima, encontrou na linguagem imperfeições que limitavam uma perfeita harmonia entre signo, sentido e referência e não via a linguagem natural como um aspecto subjetivo mas dotada de relação objetiva com o mundo, precisando criar um tipo novo de linguagem que falasse o idioma da lógica pura. Russel radicalizou a teoria mundo/linguagem com a teoria do átomo lógico, onde elementos linguísticos deveriam ser reduzidos ao máximo de significação, portanto até seu limite de significado, representando formas analíticas simples e claras, a partir da crença de que o mundo é estruturado por fatos e que cabe a linguagem lógica examiná-los. A filosofia analítica é axiomática e logicamente estruturada enquanto a continental investiga pela abertura natural da linguagem e suas amplitudes de contornos imprecisos.
O Juízo é uma forma de linguagem lógica que demonstra racionalmente uma relação de conceitos, proposições com valores de verdade, desde os silogismos aristotélicos que estabeleceram o lógos como linguagem que investiga a realidade. É, em resumo, uma constatação lógica de verdade. Em Kant importa, para o conhecimento, o juízo sintético a priori, que dá possibilidade para a ciência conhecer, mas não conhecer as verdades absolutas, ou se as há, mas apenas como as coisas aparecem para nós. Em Aristóteles está na relação do conceito de sujeito, aquilo de que falamos, o conceito de predicado, aquilo que concerne ao sujeito e seu valor de verdade lógica. Seja em Kant, seja em Aristóteles, é pela linguagem que investigamos as coisas. Mas há um filósofo contemporâneo, Martin Heidegger, crítico da metafísica clássica, que trata a linguagem de outra maneira: para ele é necessário fazer uma Hermenêutica ontológica do Ser, portanto compreender o Ser a partir do seu Sentido, fundamentado na linguagem. Heidegger recorre a poemas, obras de outros filósofos, elabora uma terminologia própria para investigar o Ser, seus modos de existir, sua espacialidade, sua temporalidade, suas afinações existenciais como a angústia, o tédio, o Ser-para-a-morte. Somos atirados numa mundanidade indeterminada, somos ser-no-mundo, ser-com, o Ente que pode questionar, pela linguagem, o seu Ser. Heidegger chama esse Ente de Dasein (Ser-aí), que vive no campo do possível e investiga os Sentido da existência, não mais de uma maneira lógica, mas fenomenológico-existencial, da abertura, da indeterminação.

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