1 – Quem é a linguagem?
Os problemas e investigações em
torno da linguagem não são novos, nem é nova a linguagem mesma, se
considerarmos as ocupações sobre o tema na filosofia antiga e dos percursos
culturais partindo da tradição oral da poesia homérica até a aquisição da
escrita. O homem como o primeiro animal que constrói sistemas de signos, passa
a significar seu éthos, questiona seu
Ser, investiga pela filosofia os fundamentos da realidade. O zoon politikon (animal político) a que
Aristóteles se refere na Política, o homem que se configura como homem no
coletivo, percebe como mecanismos de poder podem ser estruturados pelo sentido
e em ações simbólicas em movimento. Debates até hoje correntes há sobre a
origem dessa comunicação e sistematização semiótica até seu caráter de
estrutura ou convencionalidade ou gerativismo ou identidade entre outros tantos
aspectos do seu princípio, funções, dos mecanismos e natureza. Nem é nova
também a metalinguagem: Platão elege um de seus diálogos, o Crátilo, para
pensar sobre a origem da linguagem e a correção dos nomes, se é sua mutante
convencionalidade ou sua eterna imanência natural nos objetos a que refere. Para
fazer uso do seu método dialético de acesso racional ao conhecimento pela
quebra das falsas bases onde esse suposto conhecimento se sustentaria, escopo
da maiêutica socrática que ilumina toda a obra de Platão, o filósofo usa a
linguagem para investigar a linguagem. É possível voltar um pouco na história
do pensamento grego e pensar com Parmênides, Filósofo de Eleia, região onde
fica hoje a Itália, que compôs um poema chamado “Da natureza” que nos chegou
como a obra de todos os chamados pré-socráticos: por fragmentos de citações nas
obras de outros pensadores ou mesmo pela doxografia (comentários sobre o
conteúdo dos seus escritos). O poema de Parmênides inaugura o que conhecemos
hoje como Ontologia ou a lógica do Ser (ontos),
do que É o e que não É. Diz Parmênides:
Pois
bem, agora vou eu falar, e tu, presta atenção ouvindo a palavra
acerca das únicas vias de questionamento que são a pensar:
uma, para o que é e, como tal, não é para não ser,
é o caminho da persuasão – pois Verdade o segue –,
outra, para o que não é e, como tal, é preciso não ser,
esta via, indico-te que é uma trilha inteiramente inviável;
Pois nem ao menos se reconheceria o não ente, pois não é realizável,
nem tampouco se mostraria [...]
(Parmênides, 2009, p. 17)
Aqui está o princípio da
Identidade, inaugurado por Parmênides como paradigma da metafísica do Ser. Tudo
o que É necessariamente É, tudo o que não É necessariamente não É. Portanto o
ente que o poema se refere, aquilo que realmente existe, é o único passível de Ser.
Já o não-ser ou o não-ente, por não ser realizável, não ter existência, não
pode se mostrar, não pode Ser. A isso se seguem algumas questões de necessidade
ontológica:
1
– O Ser como imutável, pois se estiver em devir será e não será ao mesmo tempo, o que a cadeia argumentativa do
poema mostra não ser possível. Está portanto fora da temporalidade, da geração,
do perecimento.
2
– O Ser como imóvel, pois se for dotado de movimento estará em lugares
diferentes, aqui ou ali, portanto será e não será, dependendo de sua posição.
3
– O Ser como uno, pois se houver, por exemplo, mais um Ser, haverá dois entes
que, sendo cada um ele mesmo, não será o outro, portanto também será e não
será.
Mas Parmênides (2009, p.39) nos
apresenta sua Ontologia pela linguagem e o afirma quando diz que “ainda uma só
palavra resta do caminho: que é”, caminho este que só pode percorrido pelo Ser:
o que existe. Ainda no período pré-socrático da filosofia, Heráclito de Éfeso
sustenta uma tese diferente de Parmênides, por vezes considerada oposta, a
saber: o eterno movimento dialético de tudo. Em um dos seus fragmentos diz que
“Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos” (Heráclito, 2012,
p. 141), apontando para a constante mudança de tudo, mas também para a harmonia
dos contrários, pois “O contrário é convergente e dos divergentes a mais bela
harmonia.” (Heráclito, 2012, p. 129). Para Heráclito há, porém, no sentido mesmo
de existir, o lógos que é um nome da
polissêmica terminologia grega que pode significar discurso, lógica, palavra,
verbo, razão. Pois segundo Heráclito (2012, p. 127) “Ouvindo não a mim, mas ao lógos, é sábio concordar ser tudo-um”.
Para o filósofo de Éfeso o lógos não
é apenas um signo da linguagem, mas uma entidade que liga o discurso racional
ao mecanismo ordenado da existência, visto que “é sábio concordar ser tudo-um”,
um todo coeso onde tudo está em movimento, onde os contrários concordam entre
si dialeticamente, produzindo harmonia. Ainda que o lógos seja uma entidade, é por ele que o discurso racional (uma
forma da linguagem) está intimamente ligado ao tudo-um que tem sua lógica de
funcionamento universal como o todo da existência.
É a linguagem um todo
funcional, um jogo de perspectivas intersubjetivas em devir, uma faculdade de
representação e comunicação, sistema de signos estruturados? Homero foi o
primeiro grande Aedo ou poeta oral que compunha seus poemas para serem
declamados, e a quem foram atribuídas a Ilíada e a Odisséia, as obras poéticas
mais importantes do Ocidente e que contribuíram de maneira seminal para a
fundamentação de sua cultura, a primeira contando a parte da Guerra de Troia
deflagrada pelo rapto de Helena por Páris, filho de Príamo, a fúria do Peleu
Aquiles contra Heitor, a bravura e argúcia de Agamemnon que liderou o cerco dos
Aqueus contra Troia. O segundo poema conta a história do herói Odisseu,
coleciona uma grande quantidade de mitos e andanças do herói que regressa a
Ítaca, sua pátria, após ter lutado na Guerra de Troia. A Hesíodo, outro famoso
Aedo, são atribuídos, principalmente, os poemas Teogonia e Os trabalhos e os
Dias. O primeiro narra a história da criação de tudo a partir do Caos, dos
Deuses pré-olímpicos, de Gaia e Uranus, Cronos e Reia, da tomada do poder por
Zeus e seus irmãos, das Idades de do Ouro, da Prata, do Bronze, dos Heróis e do
Ferro, cada uma com suas peculiaridades e simbologias entre Titãs, Deuses,
Humanos e criaturas mitológicas. A segunda narra alguns dos mitos mais
importantes como o de Pandora, o de Prometeu, criador dos homens, e também uma
Ooe ao trabalho, principal meio de dignificação do homem. A composição dessas
obras tem matizes orais e datam de meados do século VIII A.C, mas não se sabe
se foram escritas ou de fato compostas oralmente, se foram concebidas pelos
dois grandes poetas da tradição épica ocidental da era pré-cristã ou se é uma
coleção de mitos trabalhados e retrabalhados artisticamente ao longo dos
séculos pelo povo grego e seus poetas errantes, sequer é sabido se Homero e
Hesíodo existiram. No Oriente é a Epopeia de Gilgamésh, poema épico
mesopotâmico escrito pelos Sumérios, que data de meados do século XXI A.C,
narrando os feitos de Gilgamésh, quinto rei de Úruk, filho de uma deusa mas
parcialmente humano, e sua busca pela imortalidade, a obra poética mais antiga
que se tem notícia, gravada em tábuas de argila, portanto escrita, e encontrada
incompleta.

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